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domingo, outubro 05, 2008

O Santuário do Senhor dos Mártires/Alcácer do Sal, em Contexto Islâmico

Versão digital do texto publicado no Boletim da ADPA nº 7, em 2006.

(Actualização 2008)

Cantigas de Santa Maria, de Afonso X de Castela, século XIII.
Iluminura inserida no "Codice de Florença", referente ao "Milagre"ocorrido no Santuário de Nª Sª dos Mártires de Alcácer do Sal.
Iluminura dada a conhecer pela Dr.ª Maria Teresa Lopes, em 2006.


1. Problemática
A investigação que temos vindo a efectuar sobre a presença almóada em Alcácer do Sal, têm permitido identificar um conjunto de aspectos que nos tem autorizado a olhar com outros olhos o final da presença islâmica na nossa cidade.
Foi num trabalho colectivo que apresentamos no Simpósio Internacional sobre Castelos, ocorrido no ano 2000 em Palmela[2], que avançamos pela primeira vez com a hipótese de ter existido uma madraza em Alcácer do Sal.
Nessa altura tratava-se de uma hipótese inovadora, que permitia demonstrar que Qasr al-Fath também teria sido um pólo cultural no Baixo Sado, para além de ter sido a sede de um taghr/fronteira do Império Almoada.
Esta hipótese contrariava uma ideia preconcebida por vários colegas, que atribuía a Alcácer durante esta fase um papel unicamente de base militar habitada por soldados, alguns mercenários e uma população civil de gostos básicos, pouco inclinados a práticas culturais, mas unicamente preocupados em fazerem a guerra contra o território português unicamente para obter saque.
Apesar dos últimos estudos que têm sido produzidos, esta ideia muito básica e redutora sobre uma Alcácer povoada de pessoas pouco inclinadas à cultura ainda se mantêm e porquê?Uma das razões parece ser a ausência nos dicionários compostos na idade média por autores muçulmanos que não referem sábios provenientes da nossa cidade.
Pensamos que uma análise mais critica destas fontes poderão revelar alguns nomes.
Por outro lado existe uma outra questão que tem sido pouco reflectida e que se prende com o impacto da conquista cristã em Alcácer de que todos somos actualmente herdeiros.
Sobre esta problemática, poderemos a título de exemplo citar dois reputados arqueólogos actuais, os Dr.s. Júlio Navarro Palazon e Pedro Jiménez Castillo que analisaram esta problemática em relação à cidade de Múrcia[3]:
“A la dificultad de reconstruir el passado andalusí de Mursia, (ou de outra cidade islâmica como é o caso de Alcácer do Sal) debido a la perdida de información ocasionada por el paso del tiempo, hay que sumar otra de índole muy diferente: nos referimos al fenómeno ideológico de damnatio memoriae, generado por la sociedad conquistadora, y que consistió en eliminar, e incluso borrar, el recuerdo de una Múrcia plenamente islámica de religión, árabe de lengua y culturalmente oriental, ….….Si no se hubiera conservado fuera de Murcia, sobre todo en bibliotecas norteafricanas, un buen número de manuscritos que testimonian la altura a la que se llegó en el campo de la teosofía, de la teología e, incluso, de la mística, la arqueología difícilmente habría podido documentar que en estas tierras se alcanzó y experimentó un conocimiento de Dios que todavía vivifica a amplias corrientes de la espiritualidad musulmana. Tampoco hubiéramos podido deducir de los restos materiales la existencia de esos sufíes cuyo exponente máximo fue Ibn Arabi”.
Esperamos que com os projectos de investigação actualmente em curso, possamos mostrar a verdadeira projecção desta medina na sua época, que pouco depois da conquista definitiva em 1217, foi escolhida para ser a Sede do Ramo Português da Ordem de Santiago.
É nesta nova perspectiva de análise que voltamos a debruçar sobre a problemática, se efectivamente existiu uma madraza em Alcácer do Sal, onde ficaria localizada?:
- Que permite olhar numa nova perspectiva as origens do Santuário do Senhor dos Mártires.
2. O Santuário do Senhor dos Mártires
2.1. Panorama actual
Conjunto monumental impar do património alcacerense, o Santuário do Senhor dos Mártires localiza-se fora das muralhas do castelo de Alcácer do Sal, a meia encosta, e dominando de uma certa altura um troço importante do curso do rio Sado.
Ao lado passa o caminho de terra batida que ia para Setúbal ao longo do estuário e na linha do horizonte é visível a Serra da Arrábida e o Castelo de Palmela.
O santuário visto do terraço da Capela dos Mestres.
Em segundo plano o rio Sado com as suas margens e as florestas ao longe.Por outro lado, o santuário ocupa um lugar de grande importância estratégica.
É visível do castelo de Alcácer, é possível deste ponto vigiar a curva para norte feita pelo rio Sado em direcção ao estuário e é neste sector que desaparece a escarpa de arenito que se desenvolve desde a colina do castelo, dando lugar a um amplo vale que facilita o acesso ao interior.Desde a sua “fundação” em meados do século XIII, tornou-se num espaço de culto mariano, com o nome de Santa Maria dos Mártires e pouco depois foi escolhido pelos Mestres da Ordem de Santiago para repouso eterno.
Espaço sagrado de enorme prestígio, desde cedo lhe foram atribuídos alguns milagres, contudo torna-se Comenda da Ordem de Santiago e guardiã do espaço rural envolvente da cidade de Alcácer, mantendo activo um culto e aproximação do sagrado que chegou aos nossos dias e que urge manter.
Em boa hora o actual executivo camarário, em conjunto com a Irmandade do Senhor dos Mártires e a Associação de Defesa do Património de Alcácer, procederam a um conjunto de acções que permitiram repor a dignidade do monumento e espaço envolvente, com a criação de uma mais valia museológica.
2.2. Algumas questões em aberto
Se não restam dúvidas sobre a importância deste santuário e sobre o culto cristão desde o século XIII, restam contudo um conjunto de questões mal esclarecidas, que também não foram até ao momento objecto de muita reflexão:
- Estamos a referir sobre o porquê de ter sido escolhido este espaço para erguer o santuário, que surge fora de muralhas numa região em guerra e que utiliza para construção do seu núcleo trecentista um potente edifício em alvenaria, numa zona claramente em défice de pedra boa para construção!Vieira da Silva, no seu estudo sobre a “ Capela dos Mestres em Alcácer do Sal ”[4], refere que o edifício situado a poente da cidade testemunha desde o início o aproveitamento que este espaço teve desde tempos remotos: o de necrópole.
De facto a chamada Capela do tesouro, núcleo construído no século XIII, com os seus arcosólios, denuncia desde o seu início a sua função como espaço funerário. Por outro lado avança a hipótese de ter sido este o primeiro edifício construído em Alcácer pelos espatários após a conquista o Arcosólio existente no interior da denominada “ Capela do Tesouro “.
Deve-se a este autor no referido estudo, a hipótese de o santuário ter o nome de “mártires “, em memória dos que tombaram no decurso da conquista cristã de 1217.
Não pondo em causa muitas das conclusões deste investigador com o qual concordamos, verificamos que o autor ignora o passado islâmico de Alcácer e talvez esse facto o impeça de aprofundar as razões que efectivamente terão levado à “ fundação “ deste espaço sagrado.
Pensamos, com base nos dados actualmente disponíveis, que a razão mais plausível para justificar um altíssimo investimento tendo em conta os condicionalismos da época, é de ter existido neste espaço um edifício ulterior em contexto islâmico, que possuía também características de santuário, sendo objecto de devoção profunda da população muçulmana.
A ter existido uma construção nesse período, esta obedeceu a outros estímulos como iremos expor.Para compreendermos a sua génese vamos ter que recuar alguns séculos.
2.3. O edifício islâmico.
Origem e funçõesComo já foi demonstrado pela arqueologia, o terreno onde se situa o Santuário foi destinado a necrópole desde a Idade do Ferro até ao período romano. Desconhecemos até ao momento enterramentos islâmicos no local.Depois da instalação cristã em Alcácer, o espaço foi de novo elevado à condição de necrópole reservado à ordem de Santiago e à nobreza alcacerense.Contudo que função teve durante os 5 séculos de permanência islâmica em al-Qasr?
Ainda pouco ou nada sabemos sobre a cidade romana de Salacia no Baixo Império, contudo documentação arqueológica até ao momento conhecida, apesar de se referir a achados soltos, demonstram claramente uma continuidade de povoamento na actual colina do castelo até à conquista muçulmana.
Os novos senhores, respeitaram os costumes e culto cristão mediante o pagamento de um imposto e talvez esse facto permita a manutenção da necrópole romana do Senhor dos Mártires, transformando-o lentamente num terreno abençoado, de cariz sagrado e livre de ocupação humana.
Numa primeira fase, é provável que os enterramentos islâmicos fossem dentro do recinto amuralhado, contudo a cidade islâmica foi crescendo e face à falta de espaço após o século X, a necrópole passou para a encosta voltada a poente.
Os enterramentos cristãos provavelmente continuaram na área do Senhor dos Mártires, mas ao longo dos séculos, tendo em conta a absorção da população crente cristã no seio da maioria islâmica, começasse a fazer pouco sentido essa pratica.Se os enterramentos cessaram, é provável que o carácter sagrado do espaço fosse perpetuado de geração em geração.
A própria estrutura defensiva alcacerense vai sofrendo alterações ao longo do tempo em fase dos desafios que iam chegando.Se em meados do século IX após os primeiros ataques vikings, a fortaleza de al-Qasr transformada em ribat era suficiente para a defesa da população, alguns séculos depois em meados dos séculos XII e XIII era necessário efectuar uma reforça total dos sistemas defensivos.
Nesses séculos, que também correspondem à anexação de Alcácer aos impérios Magrebinos, dos Almorávidas e dos Almóadas, a presença cristã e Portuguesa era mais forte e aproxima-se dos arredores da Medina Alcacerense.
O sistema defensivo a longa distância mantêm, mas é necessário criar um outro mais próximo da cidade.Os séculos XII e XIII também são séculos férteis em experiências místicas islâmicas, onde a especulação sobre a natureza de Deus, o desígnio do homem e o destino são objecto de estudo e meditação.
Alguns tratados islâmicos são traduzidos em latim e estudados no mundo cristão.A toponímia que sobreviveu até hoje, mostra para a região de Alcácer a existência de lugares onde viveram esses místicos, que procuravam tornar-se “ mártires no caminho de Deus “.Poderemos referir a titulo de exemplo o “ Cerro das Arrábidas “, Freguesia de São Pedro da Marateca, Concelho de Palmela na fronteira com o Concelho de Alcácer e que até ao século XX era um local de festa profana e peregrinação ritual durante a Páscoa.
Face ao exposto, é provável que nessa época tenha sido construído uma rábita (Convento islâmico) no Senhor dos Mártires, que teria uma função de “ jhiad activa “ na defesa do território em caso de ataque, mas que durante o resto do ano estaria dedicado à jhiad mais importante que é a “ passiva”.
Esta “ jhiad passiva ou esforço individual” é praticado na procura de Deus e dos seus propósitos.Nesse sentido, a comunidade religiosa que aí vivia, e com base em documentação referente a outros lugares similares no al-Andalus, cuidava da sua horta, meditava, prestava atenção aos desfavorecidos, dava apoio aos viajantes e dedicava-se ao ensino num espaço mais profano, numa estrutura anexa que poderia ter o nome de “ madraza”.
Dessa presença muçulmana poucos vestígios chegaram até hoje, mas importa valorizar o significado profilático de um alto-relevo islâmico actualmente visível na parede exterior da torre da Igreja do Senhor dos Mártires.
Trata-se de um pentagrama que apresenta um programa decorativo inserido na linguagem simbólica de origem berbere e que podemos encontrar bem representado por exemplo na bandeira que o califa almóada al-Nasir perdeu na batalha de Navas de Tolosa em 1212, quando foi derrotado pelo Rei Castelhano Alfonso VIII.
Na bandeira almóada este símbolo representa o poder e encontra-se dentro de um círculo. Este por sua vez encontra-se ladeado por alguns leões.
A terminar, de referir que no decurso da intervenção arqueológica efectuada no santuário sob a direcção do arqueólogo Cavaleiro Paixão, em conjunto com a Dr.ª esmeralda Gomes e Frederico Tatá, informação que agradecemos, foi encontrado um fragmento de talha estampilhada almóada que reforça a presença tardo islâmica neste espaço.
_________________________
Actualização de 2008:
Este local terá servido de Musalla em contexto Tardo-Islâmico, especialmente em contexto Almoada. Tambem serviria de recinto para treino militar e pedir chuva em anos de seca.
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[1] Paixão, Faria e Carvalho, 2000. A Presença Almoada em Alcácer do Sal
[2] Navarro Palazón, Júlio e Jiménez Castillo, Pedro – Religiosidad y creencias en la Múrcia musulmana. Testimonios arqueológicos de una cultura oriental. Huellas. Catedral de Murcia. Catalogo da exposición. Citação retirada das páginas 58 – 59.
[3] José C. Vieira da Silva, 1995. A Capela dos Mestres em Alcácer do Sal, páginas 234-238.

quarta-feira, setembro 03, 2008

As Musallas (Sari´a) de al-Qasr/Alcácer e de Turrus/Torrão: (1)

Uma Primeira Abordagem à “Geografia Sagrada Tardo-Islâmica” no Alentejo Litoral.[2]


1. Introdução

Quando estudamos numa perspectiva “lata” o urbanismo das medinas islâmicas, centramos quase sempre a nossa análise sobre as mesquitas, as alcáçovas, os sistemas defensivos e as estruturas económicas.
Se a nossa análise privilegiar o estudo das estruturas religiosas, a sua disposição no espaço e o impacto que tiveram no ordenamento urbano, é quase certo que nos esquecemos de referir a existência das
musallas/Sari´a.
Compreendemos porque razão estes espaços permanecem “quase sempre”invisíveis nos estudos sobre o urbanismo de génese islâmica.
A grande totalidade dos investigadores não lhe atribui muita importância, ou então é o “sistemático desconhecimento” que tem prevalecido até hoje!
Basta para isso consultar algumas teses de doutoramento
[3] e artigos que apresentam os novos modelos de evolução das medinas do ocidente do Dar al-Islam (Andalus e Magreb).
Localizadas sempre fora da malha urbana, esteja ela cercada ou não, as musallas correspondem quase sempre a espaços amplos, vazios de construções.
[4].
Nos raros casos em que uma musalla foi “fixada na paisagem envolvente” como construção, a abordagem é quase sempre preliminar, limitam-se a assinalar a sua existência
[5] e pouco mais.
Mas o que é uma musalla e que papel ela teve na organização do espaço urbano em contexto islâmico?
Se seguirmos a bibliografia existente, pouco há a adiantar.
Resumidamente, as musallas correspondiam a espaços amplos, desabitados, sem edificações e que serviam para duas cerimónias, que contavam com a participação de toda a comunidade. Na prática, tinham a função de “praça”, elemento urbano que não existia na medina islâmica. Noutros casos, caso a topografia fosse favorável, serviam para treino militar.
No Alentejo, cada medina teria uma musalla, contudo e até ao momento, só foram identificadas duas: - Em Alcácer e no Torrão.
Os exemplos identificados no nosso Município, obriga-nos a uma reflexão mais demorada.
Não só por existirem estruturas, como a sua existência parecer sugerir que serviriam para algo mais, do que simples musallas !

2. A “Geografia Sagrada”, como Elemento Estruturante na Medina Islâmica.

Na sociedade islâmica, a localização da Ka´ba na “Cidade Santa” de Meca, requisito importante para orientar as orações diárias, não é um mero pormenor de orientação geográfica.
Este facto também condicionava o quotidiano, desde os aspectos mais mundanos até à esfera mais íntima:

-
Por exemplo, as necessidades fisiológicas não podiam ser efectuadas em direcção a Meca.

De notar que tanto as mesquitas, como as musallas, tinham um muro da qibla e um mihrab.
Em termos simbólicos, estes edifícios eram os símbolos mais destacados e visíveis do Islão. Como centros nevrálgicos das comunidades, serviam para a oração, mas também para o ensino, reuniões sociais e eram os cenários privilegiados escolhidos para os acontecimentos políticos e legais, constituindo, segundo Souto,
[6] uma autêntica “marca territorial”, da expressão politica e administrativa do Islão.
Tendo em conta a dificuldade que existia em contexto medieval, para se saber com rigor, a localização geográfica de Meca, era concedida uma certa margem de erro na orientação das mesquitas que eram erguidas. O mesmo se passava com o fiel. Ele podia assumir uma determinada direcção, desde que coincidisse com a assumida pela sua comunidade.
Inicialmente, as mesquitas erguidas no século VIII, no Andaluz e Magreb, eram quase sempre orientadas para sul, seguindo a tradição Síria. De facto a palavra al-Qibla, nome dado ao muro que define a orientação sagrada de uma mesquita ou musalla, significa Sul.
Com o desenvolvimento da astronomia e dos cálculos matemáticos, descobriu-se no decurso do século IX que a orientação sagrada de Meca no Andaluz, coincidia com a orientação das igrejas cristãs, facto que deixou perplexos os muçulmanos e que os colocou perante um dilema de difícil resolução.
Começou a ser aceite que a orientação dos edifícios sagrados, não deveria ser tão rigorosa. O fundamental era criar uma diferenciação em relação à orientação das igrejas cristãs.
Por outro lado, no século IX, após um século de presença islâmica no al-Andalus, já tinham sido erguidas várias mesquitas segundo o modelo sírio.
[7]
Nos casos em que foi possível demolir a mesquita, a nova construção seguiu a orientação obtida pelos astrónomos. Noutros casos, por imposição da comunidade, a mesquita não foi tocada, tendo-se rectificado a orientação do Mihrab. Noutras situações, o edifício inicial foi mantido, sabendo a comunidade que a orientação não estava correcta. Nestes casos o crente podia, dentro da mesquita, voltar-se para a orientação canónica correcta.
Este conjunto de questões, que afectavam o quotidiano das comunidades, levantou problemas que teriam que ser resolvidas.
Como resposta mais pragmática, alguns “sábios” começaram a advogar que qualquer direcção geográfica seria válida, porque o mais importante era rezar. Pelo menos esta era a postura aplicada aos nómadas, aos comerciantes em viagem e aos peregrinos.
A única excepção, seria quando o fiel entrava no círculo geográfico sagrado de Meca. Aí era obrigado a voltar-se para a direcção exacta da Ka´ba, independentemente de conseguir vislumbrar no horizonte, o edifício ou não.


3. O que é uma Musalla/al-Sari´a?

A Musalla que também recebe o nome de al-Sari´a,
[8] corresponde ao espaço, quase sempre livre de construções, que se localiza junto a uma estrutura urbana, mas exterior a ela.
Também pode existir num determinado espaço religioso.
No caso do Ribat de Guardamar, a musalla aí existente, datada do século IX, foi transformada em mesquita no século X, dando origem ao complexo religioso, já em contexto califal.
[9]
Em território português, para além dos exemplos de Alcácer e do Torrão, só temos conhecimento de uma musalla ou al-Sari´a que foi recentemente identificada no Ribat da Arrifana.
Mais uma vez, segundo os autores, estamos perante uma musalla que depois de ser transformada em mesquita no século XII, terá dado origem ao complexo religioso, num percurso semelhante ao observado anteriormente em Guardamar.
Por questões de ordem fonética e topográfica, avançamos a hipótese de o topónimo Enxarrique, que define toponimicamente uma vasta planície de aluviões no lado nascente do Castelo de Silves, possa derivar da palavra al-Sari´a (Exaria/Xaria em Catalão e provavelmente Enxaria em Português). Mais uma vez estamos perante um vasto espaço aberto e junto ao espaço urbano, neste caso de Silves, num modelo que lembra o proposto para a musalla de Alcácer, instalada no actual Santuário Mariano do Senhor dos Mártires.
Em termos de coesão social e de ritualização dos deveres religiosos, as musallas tinham a “função” de “praça”, espaço de articulação urbana sempre ausente nas medinas.
De um modo geral e universal, serviam “unicamente” para a ocorrência de dois festejos anuais, onde era obrigatório, a presença de toda a comunidade:

- O final do Ramadão e o início do Ano Novo Lunar.

Ao longo do ano, o espaço permanecia desabitado e caso a topografia fosse favorável, poderia servir para treinos militares, como no caso de Alcácer, Torrão e provavelmente Silves.

4. A Musalla de Alcácer: Proposta de Localização.

Alcácer, à semelhança das outras medinas do al-Andalus tinha uma musalla.
Como cidade portuária e base militar, o recinto da musalla teria que ser amplo e de certo modo visível do castelo, caso fosse usado para o treino militar. Como complemento, poderia reunir funções de defesa militar, vitais para Alcácer.
O único espaço que reúne todas estas características é o actual “Recinto Sagrado do Senhor dos Mártires”.
Não só pela sua conotação ao sagrado e de natureza militar (existência de mártires, ter sido Panteão da Ordem de Santiago), como pela precocidade da sua génese em contexto cristão imediatamente após a conquista, denunciando a existência de uma “urgência” em captar para a esfera cristã um espaço sagrado muçulmano que fazia parte da geografia sagrada de Alcácer.
Por outro lado, devemos relembrar a existência de uma “Cantiga de Santa Maria”, dada a conhecer no século XIII, por Afonso X, rei de Castela.
[10]
De notar que este vasto recinto “aberto” do “Senhor dos Mártires”, é o único espaço amplo com boas características para treino militar que é observado desde a alcáçova da medina alcacerense, facto que não terá passado desapercebido ao poder militar muçulmano.
O lado nascente da medina, não é dominado pela alcáçova, mas sim pela cintura defensiva existente neste sector do recinto amuralhado. No lado exterior da principal linha defensiva, terá existido uma outra, que descendo até ao rio, comportava-se como albacar.
Tratava-se de um recinto secundário bastante amplo, com baixa densidade de construções e que servia de primeira linha defensiva da cidade, protegendo o porto e dando abrigo aos voluntários da jhiad que não tinham ligações familiares em Alcácer.
Pelos elementos actualmente disponíveis, sabemos que após a conquista definitiva de 1217, as linhas mestras da malha urbana muçulmana foram mantidas, nomeadamente:

- A Alcáçova e Palácio dos Banu Wazir, prontamente transformada em Paço-Sede do Ramo Português da Ordem de Santiago
- A Mesquita da medina, transformada em Igreja de Santa Maria
-O soco, transformado em mercado
- O espaço portuário islâmico que com o passar do tempo vai receber uma malha urbana em desenvolvimento, que vai dar lugar à actual Ribeira de Alcácer, alojando o Poder Camarário desde o século XIV.
- O recinto da Musalla, associada a um Ribat, que após a conquista vai ser anexada aos bens da Ordem de Santiago. O carácter sagrado do espaço que já vinha do período islâmico, vai ser apropriado pelos Espatários, sendo pouco depois transformada em Panteão dos Mestres.


Em relação ao recinto da musalla, tendo sido reconhecido pelos cristãos as suas qualidades estratégicas, parece-nos natural que numa primeira fase, tenha mantido a sua função de “Espaço para Treino Militar”.
Contudo, a peregrinação “popular” ao Santuário de Santa Maria dos Mártires, documentada pouco depois da conquista de 1217 e realçada em termos sobrenaturais por um milagre atribuído à Virgem Santa Maria, parece-nos claro, que é a continuação numa perspectiva ritual cristã, das práticas festivas islâmicas.
Se as mesquitas após a conquista eram “purificadas” e transformadas em igrejas, é natural que determinados festejos islâmicos ocorridos em determinados espaços sagrados, como é o presente caso, também fossem objecto de “purificação”.
Neste caso, terá sido necessário marcar a passagem simbólica de Musalla para Santuário Mariano, adaptando-se o ribat aí existente, ampliando-o de forma a torna-lo adequado para as novas funções litúrgicas.

A terminar, é importante reflectir nos seguintes pontos:

- Se como alguns autores defendem, a igreja de Santa Maria dos Mártires é de génese cristã, porque razão o corpo rectangular da igreja está orientada para uma “pseudo-abside” (que lembra um mihrab) que se direcciona em linha recta para a Musalla do Torrão, distante 27 Km, não sendo visível de Alcácer.(Confirmado pelo Google Earth)
- Tendo em conta o amplo terreno disponível após a conquista, porque razão o corpo da igreja, de planta rectangular, não foi orientado no sentido poente-nascente, como é a norma cristã!, mas sim, mantendo uma orientação sensivelmente sueste, sugerindo a existência de um edifício ulterior?

Todos estes elementos só têm sentido, se aceitarmos a existência neste espaço do Senhor dos Mártires, uma Musalla e um ribat, tendo este ultimo servido de orientador do espaço sagrado neste recinto e que foi mantido pelos cristãos. Estamos perante uma “conquista” de âmbito sagrado, de forma a dar continuidade aos festejos populares que aí tinham lugar.
Sempre achei estranho a ausência
[11] de uma “praça” frente à Igreja de Santa Maria do Castelo, como seria normal existir numa cidade cristã.
Calculamos que a falta de espaço para edificar dentro do recinto amuralhado do castelo de Alcácer, terá sido dramático no decurso do século XIII.
Será que a função de “Praça da Cidade” assumida pela Musalla foi mantida pelos cristãos?
Fica a questão em aberto!
Questões à parte, sabemos por provas documentais, que em contexto Medieval Cristão, o Santuário Mariano dos Mártires, era encarado na época, como elemento fundamental para a defesa sagrada da cidade, associando-se a atalaias espalhadas na linha do horizonte, no alto de colinas, em ambas as margens do Sado.
A perpetuação desta realidade, ficaram fixadas nas memórias populares que chegarão até nós como lendas.
Segundo uma delas, o Senhor dos Mártires está rodeado de “Irmãos”, visíveis entre si, que são nada mais que as referidas atalaias, transformadas em ermidas.

5. A Musalla do Torrão.

Se no exemplo da medina de Alcácer, sede militar desta região do Garb voltado ao Atlântico, é facilmente perceptível porque razão o espaço da musalla localizada no Senhor dos Mártires é grande e carecia de recinto; - mais difícil de entender é sabermos a razão de o Torrão possui a musalla estruturada de grandes dimensões, até ao momento identificado em Portugal e provavelmente na margem norte do Mediterrâneo!

Só é compreensível a existência de um edifício desta dimensão, se forem reunidas pelo menos duas condições:

-
O patrono do imóvel terá sido um grupo ou alguém ligado ao poder político do “Estado muçulmano”
- O castelo do Torrão, terá sido transformado em praça militar de primeira grandeza em território de fronteira, tendo ocorrido algo de “extraordinário” que permitiu criar um pólo importante de peregrinação muçulmana, capaz de atrair voluntários para a “Guerra Santa”.

Estes conjuntos de condições só foram reunidos após 1184.
Após o desastre almóada de Santarém, o exército muçulmano é obrigado a retirar, levando consigo o emir Al-Um´Minim Abu Ya´qub, gravemente ferido.
No caminho de regresso para Sevilha, tratando-se de uma emergência, optam pela estrada de Beja, que passava entre Alcácer e Évora, cidades que nesse ano já estavam debaixo do domínio português.
Segundo o relato islâmico, ficamos a saber que a linha de fronteira incluía o castelo do Torrão em espaço português.
O Torrão foi escolhido pelas tropas almóadas como local de repouso das tropas a pedido dos médicos do emir, na esperança que este recuperasse dos ferimentos.
Como acto de vingança, o castelo do Torrão foi conquistado e a região envolvente foi entregue à pilhagem, levada a cabo por dois grupos de tropas, em busca de viveres.
Entretanto, o estado de saúde do pai de Ya´qub al-Mansur não melhora e é necessário prosseguir o caminho para Sevilha.
As fontes conhecidas, não são claras sobre o lugar preciso da morte do emir almóada, contudo frisam que foi depois da conquista do Torrão e após vários dias de repouso frente ao castelo. Sabemos que a sua morte foi mantida em rigoroso segredo até à chegada a Sevilha, de forma a evitar confrontos militares entre os vários candidatos naturais à chefia do Império Almóada.
Podemos verificar que nesta fase de enorme crise politica, os destinos do poderoso aparelho estatal almóada foram em parte delineados no Torrão e espaço envolvente.
Será provavelmente como memória destes tempos conturbados de indefinição politica que terá sido construído uma grande musalla, de forma a marcar no território de fronteira, a marca do poder militar almóada e sacralizar para memória futura um “fragmento de tempo” que importava não ficar esquecido perante a comunidade islâmica.
Esta necessidade de propaganda ao servido do aparelho estatal magrebino só tem sentido se aceitarmos que o emir almóada Al-Um´Minim Abu Ya´qub, chefe supremo do império muçulmano mais poderoso na época e rival dos Ayyubias do Oriente, tenha falecido no Torrão, dentro da sua tenda, no acampamento que terá sido montado no espaço, onde pouco tempo depois, terá sido construída a musalla.
Estamos a crer que estamos perante a “sacralização de um espaço”, muito ao gosto do programa de reforma religioso dos unitários e que é exemplo único em território Português.
Esta valorização sagrada do território, muito ao gosto do Califa Almoada Ya´Qub al-Mansur,
[12] permitia a valorização do Torrão como espaço “privilegiado” de peregrinação muçulmana, especialmente vocacionada para os voluntários para a “Guerra Santa”, com a vantagem deste castelo estar estrategicamente localizado junto a uma ponte romana e a 1 dia de viagem de Alcácer e frente à cidade de Évora, na posse portuguesa desde 1166.

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Notas

[[1] Uma versão mais completa sobre este tema , ficará disponível em breve no site do Município de Alcácer do Sal, em formato PDF. Carvalho, A Rafael, 2008. A Musalla do Hisn Turrus/Torrão: Leitura Arquitectónica sobre uma Questão em Aberto. Colecção Digital - Elementos para a História do Município de Alcácer do Sal, Nº 2 (II Parte), http://www.cm-alcacerdosal.pt/PT/Actualidade/Publicacoes/Paginas/EstudosdoGabinetedeArqueologia.aspx
[2] Para simplificar o texto, optamos por não fazer a transliteração das palavras árabes.
[3] Mazzoli-Guitard, 2000, Las Ciudad Musulmanas en Espanã e Portugal. e Mónica Rius, 2000, La Alquibla en al-Andalus y al-Magrib al-Aqsa.
[4] A ausência de estruturas que parece ser apanágio da maior parte dos espaços classificados como musallas, parecem desmotivar logo à partida a maior parte dos investigadores.
[5] Guardamar e a Arrifana
[6] Juan Souto, 2004, La Mezquita: definición de un espacio, p. 103.[1] Um bom exemplo é a orientação a sul do primeiro Mihrab da Mesquita do Alto da Queimada, localizada na Serra do Louro, junto do Castelo de Palmela (Cordilheira da Arrábida). (Informação oral de Isabel Cristina Fernandes que agradecemos). Esta orientação Sagrada terá sido definida no século VIII, ainda antes de se saber qual a orientação correcta de Meca. No decurso dos séculos IX/X, o edifício foi mantido, contudo o Mihrab sofreu uma rectificação, orientando-se para sudoeste, de forma a ficar orientado para a posição correcta, que neste caso, apontava para a localização de Alcácer, pelo meio da abertura do vale, entre o morro de Palmela e a serra dos Gaiteiros
[7] Esta denominação, al-Sari´a, entrou na língua Catalã, transformando-se em Exaria ou Xaria. No caso da língua Portuguesa, desconhecemos como se processaria a passagem fonética. O Nome Exarramam dado ao rio Xarrama em documentação portuguesa do século XII, poderá ser alusivo à musalla/Sar´a do Torrão, se aceitar-mos que a palavra deriva da expressão árabe al-Sari´a al-Yami (A Musalla Principal), que adaptado para a fonética do português, teria um som semelhante a exaria-a-rrami!
[8] Calvo, 2004, Las Mezquitas de pequeñas ciudades y núcleos rurales de al-Andalus, p. 54.
[9] Gomes e Gomes, 2007, Ambiente natural e complexo edificado, p. 54
[10] Sobre esta questão, ver, CARVALHO, A Rafael (2006) O SANTUÁRIO DO SENHOR DOS MÁRTIRES EM CONTEXTO ISLÂMICO: Alguns elementos para o seu estudo. Neptuno, nº 7, página 4 - 6 ADPA e CARVALHO, A Rafael (2006) A REPRESENTAÇÃO ICONOGRÁFICA DO SENHOR DOS MÁRTIRES E ALCÁCER DO SAL NO SÉCULO XIII. Neptuno, nº 8, página 6-9 ADPA.
[11] Documentada em termos arqueológicos.
[12] Quase todas de herança muçulmana.
[13] Que terá sido provavelmente o “Patrono da Obra”
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Bibliografia

CARVALHO, A Rafael (2005). ALCÁCER DO SAL ENTRE 1191 E 1217 (I PARTE) Neptuno, nº 3, página. ADPA.

CARVALHO, A Rafael (2005) ALCÁCER DO SAL ENTRE 1191 E 1217 (II PARTE): O Papel do Hisn Turrus/Castelo do Torrão, no sistema defensivo Alcacerense. Neptuno, nº 5, página 5 - 7. ADPA.
Versão digital – (2006) O PAPEL DO HISN TURRUS/CASTELO DO TORRÃO, NO SISTEMA DEFENSIVO ALCACERENSE http://arqueo-alcacer. blogspot.com. (Consultado em 08-06-2007)
CARVALHO, A Rafael (2005) ALCÁCER DO SAL ENTRE 1191 E 1217: Os dias em que al-Qasr al-Fath foi sede do império Almóada. Neptuno, nº 6, página 12 - 13. ADPA.

CARVALHO, A Rafael (2006) O SANTUÁRIO DO SENHOR DOS MÁRTIRES EM CONTEXTO ISLÂMICO: Alguns elementos para o seu estudo. Neptuno, nº 7, página 4 - 6 ADPA.
CARVALHO, A Rafael (2006) A REPRESENTAÇÃO ICONOGRÁFICA DO SENHOR DOS MÁRTIRES E ALCÁCER DO SAL NO SÉCULO XIII. Neptuno, nº 8, página 6-9 ADPA.

sábado, agosto 30, 2008

As Musallas (Sari´a) de al-Qasr/Alcácer e de Turrus/Torrão: Leitura Cartográfica