domingo, outubro 05, 2008

Fragmento de Jarra Esgrafitada de Técnica Mista, encontrada em al-Qasr al-Fath/Alcácer do Sal








1. Introdução
O fragmento em estudo foi encontrado no interior do Castelo de Alcácer do Sal[1], em data que desconhecemos e encontra-se depositada nas reservas do Museu Municipal Pedro Nunes.
Trata-se de uma produção exógena, de provável origem Balear, apresentando uma técnica mista, esgrafitado/corda seca parcial, que segundos os dados disponíveis só aparece em Alcácer do Sal, estando ausente no Garb al-Andalus, nomeadamente em Silves ou Mértola.


2. Jarra.
Número de inventário – 3687.
Fragmento de parede. Apresenta a sua superfície externa coberta por uma técnica mista de esgrafitado em engobe de cor preta, associado a vidrado de cor verde-claro. No engobe preto foi esgrafitado um motivo geométrico, representado o “ cordão da eternidade”. O motivo em corda seca parcial também representa o mesmo tema numa gramática mais solta.
A superfície interna encontra-se coberta por engobe beje. A pasta é de cor avermelhada no seu nucleo e beje junto às superfícies. Contêm e. n. p. de grão fino (quartzo cristalino)
Espessura da parede - Entre 3 mm e 5 mm.
O motivo decorativo identificado, a "Corda da Eternidade", corresponde a uma temática em uso na fase almoada e que foi empregue em peças cerâmicas, nomeadamente nalgumas grandes talhas estampilhadas encontradas em Alcácer ou então em contexto arquitectónico, como é o caso do mihrab da mesquita almoade de Mértola.


3. Breve Comentário
Apesar de os primeiros exemplares de cerâmica esgrafitada no Garb al-Andalus terem sido dadas a conhecer nos anos 80/90 do século passado[2], o panorama actual pouco mudou.Tanto no caso de Silves como em Mértola, os exemplares dados a conhecer correspondem a produções de técnica simples e terão sido produzidos na região de Múrcia/Lorca.
Se aceitarmos os dados actualmente disponíveis, verificamos que cidades portuárias com forte presença almóada, como é o caso de Tavira e Faro, apresentam ausência deste tipo de produção exógena, o mesmo se passando no caso de importantes cidades do interior do Garb, como por exemplo Loulé, Beja ou Marachique/Castro da Cola.Face ao exposto, o conjunto de cerâmicas esgrafitadas exumadas na alcáçova de Alcácer do Sal, onde aparece a técnica simples de esgrafitado e a mista (esgrafitado/corda seca parcial), adquire um valor documental muito interessante.
Se analisarmos detalhadamente as funções que Silves, Mértola ou Alcácer tiveram em contexto almóada, verificamos que estamos em presença de três importantes bases militares que dominaram vastos territórios de fronteira terrestre e marítima.A questão que se levanta neste momento é saber qual a razão se só em Alcácer do Sal aparecerem alguns fragmentos com esgrafitado associado à corda seca parcial, estando ela ausente de Silves ou Mértola?
Segundo Júlio Palazon, os achados de cerâmicas com esta técnica é rara na região de Múrcia[3], mas é abundante na Ilha de Maiorca, num local chamado Carrer de Zavellá, que poderá ter sido um centro produtor.Partindo do pressuposto que os achados de Alcácer foram produzidos na Ilha de Maiorca, que significado têm no contexto Waziri alcacerense?
Será que é mais uma prova que terá existido em Alcácer um ambiente requintado no interior do "palácio" dos Ibn Wazir e que estes teriam a máxima estima do poder central almoada?
Os dados actualmente disponíveis permitem considerar al-Qasr uma base militar importante, que tambem possuia um certo grau de autonomia, que seria tolerado pelo "poder central". Como refer Ibn Khaldun na sua obra " Muqaddima" - Toda a dinastia é mais forte no seu centro do que nas suas fronteiras.Outra questão em aberto prende-se com a datação destes fragmentos, que já em 2001 demos a conhecer no encontro de arqueologia islâmica ocorrido em Cáceres e Lisboa, organizado pelo IPPAR e Região Autónoma da Estremadura.
A cidade de Alcácer do Sal é conquistada pelo Califa Ya´qub al-Mansor em 1191, mas a conquista da ilha de Maiorca pelas tropas califais almóada só acontece em 1203 no reinado de al-Nazir[4].Tendo em conta o carácter de propaganda do aparelho militar e estatal almóada, que deixou reflexos na cerâmica usada no quotidiano e sabendo de antemão que o esgrafitado produzido em Múrcia no emirato Mardanis também tinha uma carga ideológica contrária aos almóadas e favorávida ao Califado dos Abássidas, era de prever que esse tipo de cerâmica tivesse sido marginalizada no al-Andalus.
Contudo os dados arqueológicos mostram claramente que ela foi conhecida e usada em Alcácer, mas aparentemente dentro do palácio/alcáçova, no seio dos Banu Wazir.Apesar da fragilidade dos dados disponíveis, aceitamos que as primeiras cerâmicas de técnica mista terão chegado a Alcácer após a conquista de Maiorca.
Face ao exposto este conjunto encontra-se cronologicamente inserido entre 1202 e 1217 e podem antever uma ligação e interesses mútuos entre as Ilhas Baleares e a zona atlântica de Alcácer, cujo alcance desconhecemos.
Será que se tratam de ligações ulteriores ? Algumas cerâmicas exumadas em Alcácer demonstram uma ligação interessante com a actual Tunisia que remontam a meados do século X, podendo as Ilhas Baleares terem servido de placa giratória...

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Bibliografia
GOMES, 2002. Silves (Xelb), uma cidade do Gharb Al-Andalus: A Alcáçova.
Instituto português de Arqueologia.
KENNEDY, H. 1999. Os Muçulmanos na Península Ibérica. Publicações Europa-América.
NAVARRO PALAZON, J. 1986. La cerâmica Esgrafiada Andalusi de Múrcia.Publications de la casa de Velazquez.
PAIXÃO, A Cavaleiro e CARVALHO, A Rafael, 2001. Cerâmicas almóadas de al-Qasr al-Fath (Alcácer do Sal). GARB, Sítios Islâmicos do Sul Peninsular, páginas 199-229.


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Notas de Rodapé
[1] Tendo em conta que a totalidade dos fragmentos de cerâmica esgrafitada de Alcácer são provenientes do Convento de Nª senhora de Aracoelli (Dar al Imiara dos Banu Wazir), é provável que este exemplar tenha aí sido recolhido.
[2] Alguns fragmentos exumados em Mértola (Torres, Macias e Gomez) e na Alcáçova do Castelo de Silves (R. V. Gomes e M. V. Gomes).
[3] Provavelmente a zona mais importante, produtora da técnica simples de esgrafitado.
[4] Até 1188 as ilhas baleares estavam inseridas no império almóada. Nesse ano, Abd Allah n. Ghaniya, partidário da herança almorávida, conquista as Ilhas de Maiorca e Minorca, torna-se soberano autónomo, celebrando alianças comerciais com o Reino de Aragão e Génova. Anos mais tarde, em 1200 tentou a conquista de Ibiza, mas fracassou. Em 1202 teve inicio a recuperação califal das ilhas, com a conquista de Minorca pela frota califal comandada pelo sayyid Abu ´l-Ula. Só no ano seguinte foi ordenado o assalto final a Maiorca, sob o comando do mesmo Abu ´l-Ula, acompanhado com o hafecida Abu Sa´id Uthman n. Abi Hafs, num total de 1200 soldados de cavalaria, 700 arqueiros e 15 000 soldados de infantaria (Kennedy, 1999, Os muçulmanos na Península Ibérica, página 278-279)

quarta-feira, setembro 03, 2008

As Musallas (Sari´a) de al-Qasr/Alcácer e de Turrus/Torrão: (1)

Uma Primeira Abordagem à “Geografia Sagrada Tardo-Islâmica” no Alentejo Litoral.[2]


1. Introdução

Quando estudamos numa perspectiva “lata” o urbanismo das medinas islâmicas, centramos quase sempre a nossa análise sobre as mesquitas, as alcáçovas, os sistemas defensivos e as estruturas económicas.
Se a nossa análise privilegiar o estudo das estruturas religiosas, a sua disposição no espaço e o impacto que tiveram no ordenamento urbano, é quase certo que nos esquecemos de referir a existência das
musallas/Sari´a.
Compreendemos porque razão estes espaços permanecem “quase sempre”invisíveis nos estudos sobre o urbanismo de génese islâmica.
A grande totalidade dos investigadores não lhe atribui muita importância, ou então é o “sistemático desconhecimento” que tem prevalecido até hoje!
Basta para isso consultar algumas teses de doutoramento
[3] e artigos que apresentam os novos modelos de evolução das medinas do ocidente do Dar al-Islam (Andalus e Magreb).
Localizadas sempre fora da malha urbana, esteja ela cercada ou não, as musallas correspondem quase sempre a espaços amplos, vazios de construções.
[4].
Nos raros casos em que uma musalla foi “fixada na paisagem envolvente” como construção, a abordagem é quase sempre preliminar, limitam-se a assinalar a sua existência
[5] e pouco mais.
Mas o que é uma musalla e que papel ela teve na organização do espaço urbano em contexto islâmico?
Se seguirmos a bibliografia existente, pouco há a adiantar.
Resumidamente, as musallas correspondiam a espaços amplos, desabitados, sem edificações e que serviam para duas cerimónias, que contavam com a participação de toda a comunidade. Na prática, tinham a função de “praça”, elemento urbano que não existia na medina islâmica. Noutros casos, caso a topografia fosse favorável, serviam para treino militar.
No Alentejo, cada medina teria uma musalla, contudo e até ao momento, só foram identificadas duas: - Em Alcácer e no Torrão.
Os exemplos identificados no nosso Município, obriga-nos a uma reflexão mais demorada.
Não só por existirem estruturas, como a sua existência parecer sugerir que serviriam para algo mais, do que simples musallas !

2. A “Geografia Sagrada”, como Elemento Estruturante na Medina Islâmica.

Na sociedade islâmica, a localização da Ka´ba na “Cidade Santa” de Meca, requisito importante para orientar as orações diárias, não é um mero pormenor de orientação geográfica.
Este facto também condicionava o quotidiano, desde os aspectos mais mundanos até à esfera mais íntima:

-
Por exemplo, as necessidades fisiológicas não podiam ser efectuadas em direcção a Meca.

De notar que tanto as mesquitas, como as musallas, tinham um muro da qibla e um mihrab.
Em termos simbólicos, estes edifícios eram os símbolos mais destacados e visíveis do Islão. Como centros nevrálgicos das comunidades, serviam para a oração, mas também para o ensino, reuniões sociais e eram os cenários privilegiados escolhidos para os acontecimentos políticos e legais, constituindo, segundo Souto,
[6] uma autêntica “marca territorial”, da expressão politica e administrativa do Islão.
Tendo em conta a dificuldade que existia em contexto medieval, para se saber com rigor, a localização geográfica de Meca, era concedida uma certa margem de erro na orientação das mesquitas que eram erguidas. O mesmo se passava com o fiel. Ele podia assumir uma determinada direcção, desde que coincidisse com a assumida pela sua comunidade.
Inicialmente, as mesquitas erguidas no século VIII, no Andaluz e Magreb, eram quase sempre orientadas para sul, seguindo a tradição Síria. De facto a palavra al-Qibla, nome dado ao muro que define a orientação sagrada de uma mesquita ou musalla, significa Sul.
Com o desenvolvimento da astronomia e dos cálculos matemáticos, descobriu-se no decurso do século IX que a orientação sagrada de Meca no Andaluz, coincidia com a orientação das igrejas cristãs, facto que deixou perplexos os muçulmanos e que os colocou perante um dilema de difícil resolução.
Começou a ser aceite que a orientação dos edifícios sagrados, não deveria ser tão rigorosa. O fundamental era criar uma diferenciação em relação à orientação das igrejas cristãs.
Por outro lado, no século IX, após um século de presença islâmica no al-Andalus, já tinham sido erguidas várias mesquitas segundo o modelo sírio.
[7]
Nos casos em que foi possível demolir a mesquita, a nova construção seguiu a orientação obtida pelos astrónomos. Noutros casos, por imposição da comunidade, a mesquita não foi tocada, tendo-se rectificado a orientação do Mihrab. Noutras situações, o edifício inicial foi mantido, sabendo a comunidade que a orientação não estava correcta. Nestes casos o crente podia, dentro da mesquita, voltar-se para a orientação canónica correcta.
Este conjunto de questões, que afectavam o quotidiano das comunidades, levantou problemas que teriam que ser resolvidas.
Como resposta mais pragmática, alguns “sábios” começaram a advogar que qualquer direcção geográfica seria válida, porque o mais importante era rezar. Pelo menos esta era a postura aplicada aos nómadas, aos comerciantes em viagem e aos peregrinos.
A única excepção, seria quando o fiel entrava no círculo geográfico sagrado de Meca. Aí era obrigado a voltar-se para a direcção exacta da Ka´ba, independentemente de conseguir vislumbrar no horizonte, o edifício ou não.


3. O que é uma Musalla/al-Sari´a?

A Musalla que também recebe o nome de al-Sari´a,
[8] corresponde ao espaço, quase sempre livre de construções, que se localiza junto a uma estrutura urbana, mas exterior a ela.
Também pode existir num determinado espaço religioso.
No caso do Ribat de Guardamar, a musalla aí existente, datada do século IX, foi transformada em mesquita no século X, dando origem ao complexo religioso, já em contexto califal.
[9]
Em território português, para além dos exemplos de Alcácer e do Torrão, só temos conhecimento de uma musalla ou al-Sari´a que foi recentemente identificada no Ribat da Arrifana.
Mais uma vez, segundo os autores, estamos perante uma musalla que depois de ser transformada em mesquita no século XII, terá dado origem ao complexo religioso, num percurso semelhante ao observado anteriormente em Guardamar.
Por questões de ordem fonética e topográfica, avançamos a hipótese de o topónimo Enxarrique, que define toponimicamente uma vasta planície de aluviões no lado nascente do Castelo de Silves, possa derivar da palavra al-Sari´a (Exaria/Xaria em Catalão e provavelmente Enxaria em Português). Mais uma vez estamos perante um vasto espaço aberto e junto ao espaço urbano, neste caso de Silves, num modelo que lembra o proposto para a musalla de Alcácer, instalada no actual Santuário Mariano do Senhor dos Mártires.
Em termos de coesão social e de ritualização dos deveres religiosos, as musallas tinham a “função” de “praça”, espaço de articulação urbana sempre ausente nas medinas.
De um modo geral e universal, serviam “unicamente” para a ocorrência de dois festejos anuais, onde era obrigatório, a presença de toda a comunidade:

- O final do Ramadão e o início do Ano Novo Lunar.

Ao longo do ano, o espaço permanecia desabitado e caso a topografia fosse favorável, poderia servir para treinos militares, como no caso de Alcácer, Torrão e provavelmente Silves.

4. A Musalla de Alcácer: Proposta de Localização.

Alcácer, à semelhança das outras medinas do al-Andalus tinha uma musalla.
Como cidade portuária e base militar, o recinto da musalla teria que ser amplo e de certo modo visível do castelo, caso fosse usado para o treino militar. Como complemento, poderia reunir funções de defesa militar, vitais para Alcácer.
O único espaço que reúne todas estas características é o actual “Recinto Sagrado do Senhor dos Mártires”.
Não só pela sua conotação ao sagrado e de natureza militar (existência de mártires, ter sido Panteão da Ordem de Santiago), como pela precocidade da sua génese em contexto cristão imediatamente após a conquista, denunciando a existência de uma “urgência” em captar para a esfera cristã um espaço sagrado muçulmano que fazia parte da geografia sagrada de Alcácer.
Por outro lado, devemos relembrar a existência de uma “Cantiga de Santa Maria”, dada a conhecer no século XIII, por Afonso X, rei de Castela.
[10]
De notar que este vasto recinto “aberto” do “Senhor dos Mártires”, é o único espaço amplo com boas características para treino militar que é observado desde a alcáçova da medina alcacerense, facto que não terá passado desapercebido ao poder militar muçulmano.
O lado nascente da medina, não é dominado pela alcáçova, mas sim pela cintura defensiva existente neste sector do recinto amuralhado. No lado exterior da principal linha defensiva, terá existido uma outra, que descendo até ao rio, comportava-se como albacar.
Tratava-se de um recinto secundário bastante amplo, com baixa densidade de construções e que servia de primeira linha defensiva da cidade, protegendo o porto e dando abrigo aos voluntários da jhiad que não tinham ligações familiares em Alcácer.
Pelos elementos actualmente disponíveis, sabemos que após a conquista definitiva de 1217, as linhas mestras da malha urbana muçulmana foram mantidas, nomeadamente:

- A Alcáçova e Palácio dos Banu Wazir, prontamente transformada em Paço-Sede do Ramo Português da Ordem de Santiago
- A Mesquita da medina, transformada em Igreja de Santa Maria
-O soco, transformado em mercado
- O espaço portuário islâmico que com o passar do tempo vai receber uma malha urbana em desenvolvimento, que vai dar lugar à actual Ribeira de Alcácer, alojando o Poder Camarário desde o século XIV.
- O recinto da Musalla, associada a um Ribat, que após a conquista vai ser anexada aos bens da Ordem de Santiago. O carácter sagrado do espaço que já vinha do período islâmico, vai ser apropriado pelos Espatários, sendo pouco depois transformada em Panteão dos Mestres.


Em relação ao recinto da musalla, tendo sido reconhecido pelos cristãos as suas qualidades estratégicas, parece-nos natural que numa primeira fase, tenha mantido a sua função de “Espaço para Treino Militar”.
Contudo, a peregrinação “popular” ao Santuário de Santa Maria dos Mártires, documentada pouco depois da conquista de 1217 e realçada em termos sobrenaturais por um milagre atribuído à Virgem Santa Maria, parece-nos claro, que é a continuação numa perspectiva ritual cristã, das práticas festivas islâmicas.
Se as mesquitas após a conquista eram “purificadas” e transformadas em igrejas, é natural que determinados festejos islâmicos ocorridos em determinados espaços sagrados, como é o presente caso, também fossem objecto de “purificação”.
Neste caso, terá sido necessário marcar a passagem simbólica de Musalla para Santuário Mariano, adaptando-se o ribat aí existente, ampliando-o de forma a torna-lo adequado para as novas funções litúrgicas.

A terminar, é importante reflectir nos seguintes pontos:

- Se como alguns autores defendem, a igreja de Santa Maria dos Mártires é de génese cristã, porque razão o corpo rectangular da igreja está orientada para uma “pseudo-abside” (que lembra um mihrab) que se direcciona em linha recta para a Musalla do Torrão, distante 27 Km, não sendo visível de Alcácer.(Confirmado pelo Google Earth)
- Tendo em conta o amplo terreno disponível após a conquista, porque razão o corpo da igreja, de planta rectangular, não foi orientado no sentido poente-nascente, como é a norma cristã!, mas sim, mantendo uma orientação sensivelmente sueste, sugerindo a existência de um edifício ulterior?

Todos estes elementos só têm sentido, se aceitarmos a existência neste espaço do Senhor dos Mártires, uma Musalla e um ribat, tendo este ultimo servido de orientador do espaço sagrado neste recinto e que foi mantido pelos cristãos. Estamos perante uma “conquista” de âmbito sagrado, de forma a dar continuidade aos festejos populares que aí tinham lugar.
Sempre achei estranho a ausência
[11] de uma “praça” frente à Igreja de Santa Maria do Castelo, como seria normal existir numa cidade cristã.
Calculamos que a falta de espaço para edificar dentro do recinto amuralhado do castelo de Alcácer, terá sido dramático no decurso do século XIII.
Será que a função de “Praça da Cidade” assumida pela Musalla foi mantida pelos cristãos?
Fica a questão em aberto!
Questões à parte, sabemos por provas documentais, que em contexto Medieval Cristão, o Santuário Mariano dos Mártires, era encarado na época, como elemento fundamental para a defesa sagrada da cidade, associando-se a atalaias espalhadas na linha do horizonte, no alto de colinas, em ambas as margens do Sado.
A perpetuação desta realidade, ficaram fixadas nas memórias populares que chegarão até nós como lendas.
Segundo uma delas, o Senhor dos Mártires está rodeado de “Irmãos”, visíveis entre si, que são nada mais que as referidas atalaias, transformadas em ermidas.

5. A Musalla do Torrão.

Se no exemplo da medina de Alcácer, sede militar desta região do Garb voltado ao Atlântico, é facilmente perceptível porque razão o espaço da musalla localizada no Senhor dos Mártires é grande e carecia de recinto; - mais difícil de entender é sabermos a razão de o Torrão possui a musalla estruturada de grandes dimensões, até ao momento identificado em Portugal e provavelmente na margem norte do Mediterrâneo!

Só é compreensível a existência de um edifício desta dimensão, se forem reunidas pelo menos duas condições:

-
O patrono do imóvel terá sido um grupo ou alguém ligado ao poder político do “Estado muçulmano”
- O castelo do Torrão, terá sido transformado em praça militar de primeira grandeza em território de fronteira, tendo ocorrido algo de “extraordinário” que permitiu criar um pólo importante de peregrinação muçulmana, capaz de atrair voluntários para a “Guerra Santa”.

Estes conjuntos de condições só foram reunidos após 1184.
Após o desastre almóada de Santarém, o exército muçulmano é obrigado a retirar, levando consigo o emir Al-Um´Minim Abu Ya´qub, gravemente ferido.
No caminho de regresso para Sevilha, tratando-se de uma emergência, optam pela estrada de Beja, que passava entre Alcácer e Évora, cidades que nesse ano já estavam debaixo do domínio português.
Segundo o relato islâmico, ficamos a saber que a linha de fronteira incluía o castelo do Torrão em espaço português.
O Torrão foi escolhido pelas tropas almóadas como local de repouso das tropas a pedido dos médicos do emir, na esperança que este recuperasse dos ferimentos.
Como acto de vingança, o castelo do Torrão foi conquistado e a região envolvente foi entregue à pilhagem, levada a cabo por dois grupos de tropas, em busca de viveres.
Entretanto, o estado de saúde do pai de Ya´qub al-Mansur não melhora e é necessário prosseguir o caminho para Sevilha.
As fontes conhecidas, não são claras sobre o lugar preciso da morte do emir almóada, contudo frisam que foi depois da conquista do Torrão e após vários dias de repouso frente ao castelo. Sabemos que a sua morte foi mantida em rigoroso segredo até à chegada a Sevilha, de forma a evitar confrontos militares entre os vários candidatos naturais à chefia do Império Almóada.
Podemos verificar que nesta fase de enorme crise politica, os destinos do poderoso aparelho estatal almóada foram em parte delineados no Torrão e espaço envolvente.
Será provavelmente como memória destes tempos conturbados de indefinição politica que terá sido construído uma grande musalla, de forma a marcar no território de fronteira, a marca do poder militar almóada e sacralizar para memória futura um “fragmento de tempo” que importava não ficar esquecido perante a comunidade islâmica.
Esta necessidade de propaganda ao servido do aparelho estatal magrebino só tem sentido se aceitarmos que o emir almóada Al-Um´Minim Abu Ya´qub, chefe supremo do império muçulmano mais poderoso na época e rival dos Ayyubias do Oriente, tenha falecido no Torrão, dentro da sua tenda, no acampamento que terá sido montado no espaço, onde pouco tempo depois, terá sido construída a musalla.
Estamos a crer que estamos perante a “sacralização de um espaço”, muito ao gosto do programa de reforma religioso dos unitários e que é exemplo único em território Português.
Esta valorização sagrada do território, muito ao gosto do Califa Almoada Ya´Qub al-Mansur,
[12] permitia a valorização do Torrão como espaço “privilegiado” de peregrinação muçulmana, especialmente vocacionada para os voluntários para a “Guerra Santa”, com a vantagem deste castelo estar estrategicamente localizado junto a uma ponte romana e a 1 dia de viagem de Alcácer e frente à cidade de Évora, na posse portuguesa desde 1166.

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Notas

[[1] Uma versão mais completa sobre este tema , ficará disponível em breve no site do Município de Alcácer do Sal, em formato PDF. Carvalho, A Rafael, 2008. A Musalla do Hisn Turrus/Torrão: Leitura Arquitectónica sobre uma Questão em Aberto. Colecção Digital - Elementos para a História do Município de Alcácer do Sal, Nº 2 (II Parte), http://www.cm-alcacerdosal.pt/PT/Actualidade/Publicacoes/Paginas/EstudosdoGabinetedeArqueologia.aspx
[2] Para simplificar o texto, optamos por não fazer a transliteração das palavras árabes.
[3] Mazzoli-Guitard, 2000, Las Ciudad Musulmanas en Espanã e Portugal. e Mónica Rius, 2000, La Alquibla en al-Andalus y al-Magrib al-Aqsa.
[4] A ausência de estruturas que parece ser apanágio da maior parte dos espaços classificados como musallas, parecem desmotivar logo à partida a maior parte dos investigadores.
[5] Guardamar e a Arrifana
[6] Juan Souto, 2004, La Mezquita: definición de un espacio, p. 103.[1] Um bom exemplo é a orientação a sul do primeiro Mihrab da Mesquita do Alto da Queimada, localizada na Serra do Louro, junto do Castelo de Palmela (Cordilheira da Arrábida). (Informação oral de Isabel Cristina Fernandes que agradecemos). Esta orientação Sagrada terá sido definida no século VIII, ainda antes de se saber qual a orientação correcta de Meca. No decurso dos séculos IX/X, o edifício foi mantido, contudo o Mihrab sofreu uma rectificação, orientando-se para sudoeste, de forma a ficar orientado para a posição correcta, que neste caso, apontava para a localização de Alcácer, pelo meio da abertura do vale, entre o morro de Palmela e a serra dos Gaiteiros
[7] Esta denominação, al-Sari´a, entrou na língua Catalã, transformando-se em Exaria ou Xaria. No caso da língua Portuguesa, desconhecemos como se processaria a passagem fonética. O Nome Exarramam dado ao rio Xarrama em documentação portuguesa do século XII, poderá ser alusivo à musalla/Sar´a do Torrão, se aceitar-mos que a palavra deriva da expressão árabe al-Sari´a al-Yami (A Musalla Principal), que adaptado para a fonética do português, teria um som semelhante a exaria-a-rrami!
[8] Calvo, 2004, Las Mezquitas de pequeñas ciudades y núcleos rurales de al-Andalus, p. 54.
[9] Gomes e Gomes, 2007, Ambiente natural e complexo edificado, p. 54
[10] Sobre esta questão, ver, CARVALHO, A Rafael (2006) O SANTUÁRIO DO SENHOR DOS MÁRTIRES EM CONTEXTO ISLÂMICO: Alguns elementos para o seu estudo. Neptuno, nº 7, página 4 - 6 ADPA e CARVALHO, A Rafael (2006) A REPRESENTAÇÃO ICONOGRÁFICA DO SENHOR DOS MÁRTIRES E ALCÁCER DO SAL NO SÉCULO XIII. Neptuno, nº 8, página 6-9 ADPA.
[11] Documentada em termos arqueológicos.
[12] Quase todas de herança muçulmana.
[13] Que terá sido provavelmente o “Patrono da Obra”
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Bibliografia

CARVALHO, A Rafael (2005). ALCÁCER DO SAL ENTRE 1191 E 1217 (I PARTE) Neptuno, nº 3, página. ADPA.

CARVALHO, A Rafael (2005) ALCÁCER DO SAL ENTRE 1191 E 1217 (II PARTE): O Papel do Hisn Turrus/Castelo do Torrão, no sistema defensivo Alcacerense. Neptuno, nº 5, página 5 - 7. ADPA.
Versão digital – (2006) O PAPEL DO HISN TURRUS/CASTELO DO TORRÃO, NO SISTEMA DEFENSIVO ALCACERENSE http://arqueo-alcacer. blogspot.com. (Consultado em 08-06-2007)
CARVALHO, A Rafael (2005) ALCÁCER DO SAL ENTRE 1191 E 1217: Os dias em que al-Qasr al-Fath foi sede do império Almóada. Neptuno, nº 6, página 12 - 13. ADPA.

CARVALHO, A Rafael (2006) O SANTUÁRIO DO SENHOR DOS MÁRTIRES EM CONTEXTO ISLÂMICO: Alguns elementos para o seu estudo. Neptuno, nº 7, página 4 - 6 ADPA.
CARVALHO, A Rafael (2006) A REPRESENTAÇÃO ICONOGRÁFICA DO SENHOR DOS MÁRTIRES E ALCÁCER DO SAL NO SÉCULO XIII. Neptuno, nº 8, página 6-9 ADPA.

sábado, agosto 30, 2008

As Musallas (Sari´a) de al-Qasr/Alcácer e de Turrus/Torrão: Leitura Cartográfica








segunda-feira, agosto 18, 2008

Alcácer em Contexto Almoada

Contexto Almorávida

Documentário Interessante sobre os Reinos Taifas: Infelismente não referem Alcácer...

O Torrão em Contexto Islâmico: Uma Breve Introdução

Troço hipotético da Via Romana Salacia-Pax-Iulia, via Torrão

Localização da igreja visigótica de S. João dos Azinhais

Proposta de Delimitação do Termo de Alcácer, segundo os elementos existentes num documento da Chancelaria de D. Sancho I, a favor da Ordem de Santiago.

A localização do Torrão em termos de circulação terrestres/fluvial, desde o Periodo romano até à Idade Média


1. A Primeira Fase.

O topónimo Turrus, usado em contexto islâmico para o actual Torrão, corresponde a uma adaptação fonética da palavra latina Turres.
Trata-se de um topónimo bastante comum no al-Andalus e de difícil interpretação, porque está sujeita a várias leituras.
Pela nossa parte e na sequência do que temos vindo a expor, defendemos a hipótese de este “turrus” corresponder a uma ocupação tardo romana com funções de “mansio/estalagem”, de apoio à via romana que por aqui passava.
O período islâmico no Torrão, é um capítulo ainda por escrever.
Os únicos dados disponíveis, permitem uma leitura para a fase final do século VII, ainda em contexto Visigótico e algumas décadas antes da invasão. Depois a partir do século XII, voltamos a ter alguns elementos, coincidindo estes com a afirmação do poder almóada neste território, em disputa com o Reino de Portugal.
Entre o ano 700 e 1184 o silêncio é total, ou seja:

- Com base nos dados disponíveis, estamos convictos de que terá existido uma presença humana neste espaço durante o período islâmico, em moldes e ritmos de apropriação do território que nos escapam.

A sugestão de que o Torrão terá sido, desde a Antiguidade Tardia e Islamização, o “centro administrativo deste território”, é uma hipótese interessante e viável que aceitamos, mas que necessita de mais elementos de analise.
Só em contexto português do século XIII, em 1260, é que a Vila do Torrão emerge como sede de município, emancipado de Alcácer, após atribuição de uma Carta de Foral que entretanto desapareceu.
[1].
Trata-se de uma situação similar com o que se passou com Santiago do Cacem,
Em ambos os casos, estamos perante um padrão que não nos parece ser coincidência, mas antes, ter resultado de uma linha de acção por parte da Ordem de Santiago, que necessita de ser aprofundado.
Até que ponto, a ausência de documentação já referida, traduz ou não, ausência de povoamento ou “vazio administrativo”.
Tomemos como exemplo o caso de Palmela:

- O castelo só é referido nas fontes muçulmanas e portuguesas em meados do século XII, contudo as escavações arqueológicas no seu interior, demonstraram a sua existência, desde o século VIII. Pensamos que é neste quadro que devemos olhar para o Torrão.


Em termos geográficos, o Torrão localiza-se quase a meio caminho entre três cidades importantes do Garb al-Andalus:

- Al-Qasr/Alcácer, Évora e Beja.

O acesso a estas medinas, ou entre elas, só podia ser efectuado por via terrestre.
Este facto “obriga” a permanência de uma presença humana no Torrão, para “apoio viário” e servir os interesses políticos das medinas vizinhas.
O poder instalado nas principais urbes do Garb “não olhavam” com simpatia os “nómadas”, islamizados ou talvez não, que deambulavam por este território.
Um bom exemplo desta preocupação é o que aconteceu após a pilhagem e destruição de Évora, por Ordonho no Verão de 913.
[2], relatado por Ibn Hayyan, na sua obra, al-Muqtabas, Vol V, p. 62-64.[3]
Um dos elementos mais interessantes deste relato, reside na opção de Ordonho em atacar Évora.
Porque atacou ele esta cidade e não Alcácer ou Badajoz?
O texto que chegou até nós, permite fornecer parte da resposta:

- Segundo o cronista, as defesas da cidade estavam bastante deteoradas e o lixo acumulava-se junto à muralha, mostrando um desleixo que também traduz ausência de conflitos (graves!) no espaço envolvente.

Outra questão que nos surpreende é o conhecimento que as tropas cristãs têm do território islâmico e o estado das suas defesas, sugerindo cumplicidades da parte do campo muçulmano e redes de espionagem, que sabemos terem existido em ambos os lados.
O que o texto nos transmite é que imediatamente após o saque, as tropas cristãs rumaram directamente para a Galiza, mostrando deste modo preocupação pelo tipo de reacção do campo muçulmano.
Outro dado interessante que nos parece interessante constatar, é o aparente desinteresse dos Banu Danis instalados em Alcácer, em anexar Évora, quando esta ficou despovoada.
A iniciativa de recuperar Évora, coube unicamente ao soberano de Badajoz, que deste modo pode instalar um aliado nesta cidade e reforçar a aliança que tinham com os alcacerenses.
Após uma fase aparentemente estável durante o Período Califal, ao longo do século X, nos inícios do século XI, esta região regressou novamente à instabilidade política, que irá afectar “gravemente”a estrutura económica e demográfica de toda esta região.
Nesta fase, o Torrão localizava-se na “linha de fronteira” que foi estabelecida entre os dois reinos de Taifas mais importantes do Garb; - Sevilha e Badajoz.
Os vários autores muçulmanos que “laconicamente” referem esta região, são unânimes em frisarem a enorme insegurança que então se vivia.
Segundo Ibn Idari
[4]

(p. 1667-168) “Conflitos de los primeiros aftasíes:
En el 421/1030 hubo conflictos y guerras entre Isma´il bn di-l-Wizaratayn Abi-l-Qasim el qadi con Ibn al-Aftas. El sevillano pidió ayuda a Ibn ´Abd Allah al-Birzali, sahid de Carmona, centro de la fitna, y este cerco a Ibn al-Aftas en Baya (Beja), le mato a muchos hombres e hizo prisionero al hijo de Ibn al-Aftas y lo encarceló. Llegó esta algazúa de Ibn al-Aftas hasta el limite...
[5]

(p. 169) “Y de las cosas sabidas de memoria está que al-Mu´tadid continuó la guerra con Ibn al-Aftas en los meses del año 442/1050-51 y que conquisto gran número de castillos que unió a su ´amal, los fortifico con sus hombres; destruyó sus amplas edificaciones, arraso sus cosechas y arrebato su ganado. No fue capaz al-Muzaffar de defenderse un solo palmo y se refugio en Badajoz, de donde no salió ni un solo caballero. Al quejarse de su situación a sus aliados no encontro ningún partidário ni defensor. Cuando concluyó al-Mu´tadid el sometimiento de su território, decidió volver a Sevilla en sawwal de ese año.
[6]


É provável que a estabilidade nesta região só chegue de uma forma clara após 1094, quando os Almorávidas anexam a Taifa Aftássida de Badajoz ao seu império.
Os períodos de “paz” em termos documentais, coincidem quase sempre com vazios de informação, dado que a quase totalidade dos relatos conhecidos só descrevam actos bélicos.
Mais uma vez, a região do Torrão regressa ao seu “longo silêncio”.



2. O Torrão nos Séculos XII-XIII.

Após 1145, o Emirato Almorávida em crise, entra em colapso e acelera o desvio de tropas para o Magreb onde luta pela sua “sobrevivência” fase à revolta dos Almóadas.

No al-Andalus, perante o “vazio” da autoridade Almorávida, e o emergir de movimentos de natureza sufista, favorece a eclosão de revoltas. Este vazio de “valores e de legalidade de natureza política”, cria um grande desconforto no campo islâmico, agravado com o avanço cristão para sul.
O campo muçulmano fragmenta-se e as “lealdades” são estabelecidas com os “Senhores da Guerra”, sejam eles cristãos ou muçulmanos, dissidentes ou não
[7].
É nesta fase que em 1158, os alcacerenses liderados por Ali Whahibi solicitam ajuda militar a D. Afonso Henriques, para não serem anexados ao Império Almóada.
[8]
Os senhores locais revoltam-se e assumem o poder nas várias cidades do Garb, procurando estender a sua autoridade nos castelos mais próximos, dando origem às II Taifas.
Mais uma vez, a localização do Torrão, numa zona de fronteira de “áreas de influência”, entre Évora, Alcácer e Beja, impede-nos de aferir em que realidade politica terá sido inserida.
Tendo em conta o papel de “esvaziamento gradual” que a medina de Beja vai sofrendo desde o Período Califal, como pólo cultural e administrativo, não nos surpreende que a passagem dessas funções seja assumida pelas “elites” instaladas em Évora e Alcácer.
Não podemos esquecer que Alcácer em contexto Almorávida, terá sido escolhida para sede militar da Fronteira do Garb, dominando um território que em termos de hierarquia lhe devia obediência e que se estendia desde as praias da Comporta até aos primeiros picos nevados da Sierra de Gredos, na vizinhança da actual Comunidade Autónoma de Madrid.

Apesar de ser um espaço amplo, que engloba partes importantes do actual Alentejo e da vizinha Estremadura Espanhola, tendo em conta as dificuldades de deslocação na época, é provável que o representante do poder almorávida instalado em al-Qasr, tenha escolhido algumas cidades para delegação de funções, instalando nesses postos chaves, homens da sua confiança, quase sempre de origem magrebina e saariana.
Este mecanismo de gestão, permitiria articular de forma adequada a gestão da informação”sensível” e a colecta de recursos necessários para o aparelho militar e desenvolvimento económico.
[10]
Apesar do tamanho desmedido do espaço geográfico à responsabilidade de Alcácer, esta cidade possuía o seu espaço económico específico, que geria de forma directa.
Este território que coincidia com a bacia do Médio e Baixo Sado, incluiria naturalmente o Torrão.

Na realidade, seria errado para o poder muçulmano, não prestar atenção a este castelo.
Não é só a questão estratégica do Torrão que contava, localizado entre duas cidades da bacia do Sado
[11], mas sim aproveitar os seus recursos naturais, as florestas, a circulação fluvial, os seus campos férteis, propício à criação de gado, dando estímulos para a manutenção de “rotas comerciais”.
Aceitando esta leitura, de que existe uma presença humana no Torrão desde meados do século VIII, que gradualmente se vai islamizado, que “paisagem humana” vão os portugueses encontrar no decurso do século XII?
A chancelaria de D. Sancho I possui um documento que importa analisar de forma adequada.



2.1. A Análise do Documento de 1186, a favor da Ordem de Santiago.

O documento foi emitido a 28 de Outubro de 1186.
[12].

1186 Outubro 28 – Doação dos Castelos de Alcácer, Palmela, Almada e Arruda, com seus termos, a Sancho Fernandes, mestre da milícia da Ordem de Santiago, e aos seus sucessores.

In Dei nomine. Quoniam morum assiduitate et legis sanctione didicimus quod acta uirorum bonorum scripto commendari debeant ut commendata ab hominum memoria non decidant et omnibus pretérita presentialiter consistant, iccirco ego Santius Dei gratia Portugalensium rex magni regis domni alfonsi et regine domne Mahalde filius, una cum uxore meã Regina domna Sanctia, facio cartam donationis et firmitudinis perpetue uobis domno Sactio Frenandi, Dei gratie Milicie Sancti Iacobi magistro, et fratribus uestris presentibus et futuris de illis méis castellis, scilicet lcazar, Palmela, Almadana et Arruda. Damus itaque uobis atque concedimus prenomonata castella cum omnibus suis terminis nouis et ueteribus in Honoré Dei et Beati Iacobi apostoli ut uos et omnes uestri Ordinis successores ea et quicquid in eis ad ius regale pernet iure hereditário habeatis et perpetuo possideatis tali uidelicet condicione ut mihi et filiis méis et nostris successoribus cum eis obediendo seruatis...

Delimitação do Termo de Alcácer.

In primo per lombum de serra de Alcazouis quomodo ferit in Exarramam et ultra Exarramam per lombum quomodo uadit ad capita de Seuerena et de ipsis capitibus quomodo ferit charnecha in monasterium quod iacet in ripa de Odiuelas et uktra Odiuelas sicut uadit directe ad forcadas de Alfondom et de ipsis forcadas quomodo uadit directe ad Alualadi et de Alualadi quomodo uadit lombum inter Coronam et Benetolat usque ad cerrum de Monte Acuto et per aquam que descendit de Monte Acuto usque ad maré. Et de predictis Alcazouis sicut uadit directe ad fontem de Chiriana et inde sicut uadit directe ad serram de Arloch et sicut uadit de ipsa serra ad Rengiam et Rengia ad cimalias de Campo Maiori et inde quomodo ferit cerrum in Caniam...
Et termini de Palmela iuntent se cum terminis de Alcazar et de Almadana.



Delimitação do Termo de Alcácer em 1186 (Área Norte), atribuído à Ordem de Santiago, segundo a documentação de D. Sancho I.


Comentário:

Tendo em conta que a documentação administrativa muçulmana simplesmente “desapareceu”
[13], a documentação cristã coeva desta fase, reveste-se de um valor inestimável.

Antes de passarmos à sua análise, convêm termos presente os seguintes aspectos:


1. Relativo desconhecimento geográfico do território conquistado, procurando-se apoio nas populações conquistadas, de modo a apreenderem os enquadramentos administrativos dos espaço conquistados. Mesmo em tempo de guerra, é importante manter os antigos “circuitos económicos” e a hierarquia do povoamento.
2. Desconhecimento da Língua Árabe e Berbere, o que provocará adaptação ou transformação da toponímia pré-existente:
- Adaptação fonética dos sons árabes ou simplesmente atribuir novas denominações, quando o significado é obscuro ou a sua pronunciação oferece dificuldades aos novos senhores.
[14]


É óbvio que a documentação cristã, neste caso a portuguesa, não está interessada em reproduzir a realidade do território islâmico que vai sendo anexado por conquista, porque o destinatário não é a população muçulmana e muito menos as suas elites, daí o carácter lacónico deste tipo de informação disponibilizada para “memória futura”.
Os objectivos, que incentivaram a produção deste tipo de documentação, podem ser de várias naturezas:


- Por um lado, permitem de uma forma clara, reforçar o papel do rei, como senhor “legítimo do espaço conquistado”, tendo como testemunha Deus, os Apóstolos e a sua “corte”.
- Deste modo e para “memória futura”, o novo território começa a ser retalhado e distribuído aos grupos de interesse, consoante o interesse político do momento
.

Apesar de ser rei, é-lhe impossível gerir o reino sem aliados, sejam eles quem forem!
No presente caso a quem se destina o documento e que informação nos pode revelar?
Este documento é uma “prova pública” que D. Sancho I utiliza para legitimar e continuar a vontade de seu pai, D. Afonso Henriques, no agraciamento à Ordem de Santiago, criando-lhe uma base territorial, para a continuação da conquista para sul.
Mas até que ponto este documento é fiel testemunho do território inserido em espaço cristão?
É provável, que em 1186 se tenha assistido a um retrocesso territorial.
Certos documentos são como certas leis:

- São elaboradas quando surgem dúvidas ou é necessário resolver problemas. Numa época em que as fronteiras são bastante “volúveis”, a sua fixação em documentação escrita, é uma garantia “para o futuro”, de que permanecerão intactas, quando vierem “melhores dias”.

É neste “contexto” que incluímos este documento. Para isso chamamos a atenção para os seguintes aspectos, que importa comentar:

1 – Elemento anómalo - A datado. Outubro (28) de 1186.

Convêm para isso, relembrar a conjuntura política da época.
Segundo os dados disponíveis, sabemos que a primeira conquista portuguesa de Alcácer data de 1160.
[15]
Entre 1160 e 1164, Alcácer comporta-se como um enclave português em espaço islâmico.
Carência de meios militares e humanos, que contribuem para um “desinteresse” em ocupar o espaço rural, pouco contribuem para mudar este panorama, porque o saque do território islâmico é mais estimulante em termos económicos.
Um bom exemplo é o saque de Beja efectuado em 1162, numa acção comandada por Fernão Gonçalves e apoiada por cavaleiros-vilão de Coimbra e Santarém. A cidade será pouco depois abandonada.
[16]
Contudo, por uma questão estratégica em relação à cidade de Lisboa, os castelos da Arrábida (Palmela, Coina e Sesimbra) são conquistados em 1164 e mais uma vez pouco sabemos como terá sido efectuada essa conquista, porque mais uma vez, as fontes são lacónicas e pouco claras.

Pouco depois chega a vez da cidade de Évora, por iniciativa “particular” de Geraldo sem Pavor, que pouco depois a “vende” ao rei.
O que verificamos é que entre 1160 e 1165, a iniciativa parece repousar em “milícias populares” e “aventureiros”, que em busca de pilhagem, contribuem para dilatar”de forma informal”, o Reino de Portugal.
Este estado de coisas parece continuar nos anos seguintes. O poder almóada pouco faz e quando reage, poucos resultados práticos obtêm. Por vezes, obtêm mais vantagem estratégica, nas tréguas celebradas entre os beligerantes. É o que acontece com a trégua de 5 anos celebrada em 1174 e a entrega pelos portugueses, das “ruínas” da cidade de Beja ao poder almóada, que prontamente investe na sua recuperação.
Mas os almóadas não desistem de recuperar Alcácer e após o final das tréguas os combates são retomados.
É de aceitar como hipótese, que desde 1160 e até meados de 1180, a influência e raio de acção dos portugueses instalados em Alcácer, consigam progressivamente alcançar um “reconhecimento” do seu domínio territorial até Alvalade e à foz do rio Mira, estabelecendo as “bases futuras” do território a atribuir à Ordem de Santiago, debaixo do domínio Alcacerense.
Em 1170, D. Afonso Henriques emite uma Carta de Foral para protecção da comunidade mourisca de Lisboa, Almada, Palmela e Alcácer. Curiosamente a comunidade mujedar de Évora não é referida.
O desastre almóada de 1184 frente a Santarém vai provavelmente alterar o quadro político da região e o comportamento entre os beligerantes.
Avançamos a hipótese de ter sido na sequência deste “fatalidade” para os almóadas, que se dá a conquista do Hisn Turrus/Torrão até então na posse portuguesa.
É curiosamente após o episódio de Santarém que se assiste à emissão de nova documentação régia, desta vez para favorecer a fixação de população cristã a sul do Tejo, no eixo que vai de Palmela a Évora, passado por Alcácer.
Terá existido um Foral atribuído a Alcácer, em data anterior a 1185, referido no Foral de Palmela e que se perdeu.
Um ano depois é emitido o presente documento.
Se pusermos como hipótese de trabalho, que a conquista almóada do castelo do Torrão, vai criar um ponto avançado muçulmano entre Alcácer e Évora, parece-nos natural que o território a sul do Torrão e anteriormente sob a influencia portuguesa, passe de facto para a esfera muçulmana.
É neste novo contexto político que vemos a necessidade de emitir este documento:

- O que se procura, é transmitir um documento que legitime futuramente a inserção do território, que vai desde o Torrão até à foz do rio Mira, de novo para o património da Ordem de Santiago, quando for efectuada a sua recuperação por conquista. Impedia-se deste modo o acesso da Ordem de Avis à costa Atlântica, reservando-se espaços de influência e de direito de conquista, no actual Alentejo.


Contudo, que provas temos nós para aceitar uma conquista almóada do Torrão em 1184, se aparentemente a fonte portuguesa de 1186, sugere a inclusão deste território no espaço português?
Temos ao nosso dispor a seguinte documentação:

1 – A Fonte Muçulmana do desastre de Santarém ocorrido em 1184, que relata a conquista e pilhagem de um hisn Turrus a sul de Santarém, no caminho para Beja e Sevilha.
2 - Denominação toponímica de Exarramam
[17] ao rio que atravessa a serra das Alcáçovas e passa por esta região, que só tem sentido após a construção de uma musalla no Torrão, só possível em contexto de domínio militar almóada.
3 – Por último, chamamos a atenção para um facto aparentemente inexplicável.
A enumeração dos locais que figuram na delimitação do Termo de Alcácer, tem sempre a serra das Alcáçovas e o rio Xarrama como ponto de partida para Sul. Para Norte omite-se o rio, mas permanece o nome da serra, o que é compatível na marcação de um limite no espaço geográfico. Verifica-se que para sul, os dados são um pouco vagos e as linhas imaginárias atravessam charnecas e espaços entre rios. Para Norte da serra das Alcáçovas, existe maior riqueza de pormenores, apesar de delimitar menor território.

Não há dúvida que em 1186, a serra das Alcáçovas poucos quilómetros a norte do Torrão é um ponto de referência geográfica que todos os cristãos na época conheciam bem e que o documento procura frisar bem e porquê?
Este dado só tem sentido, se esta serra for entendido como uma fronteira”não assumida” de um território recentemente perdido, ou seja:

- Para norte o território ainda é cristão, inserido no Reino de Portugal e sob gestão da ordem de Santiago, o que parece não acontece para sul. Supomos deste modo que o Torrão estaria de novo sobre o domínio islâmico.

Após uma primeira presença portuguesa nesta região que teve início em 1160, verificamos que os 31 anos até 1191 só têm valor absoluto para Alcácer.
Em relação ao território que fica para sul em direcção à serra de Grândola e para nascente em direcção ao Torrão, os dados disponíveis permitem aceitar uma presença portuguesa que perdurou menos tempo. Se tomarmos como certa a data de 1184 para a conquista almóada do Torrão, teremos uma primeira presença portuguesa neste castelo de 24 anos, o suficiente para cimentar a presença da Ordem de Santiago neste espaço de fronteira com o território de influência de Évora.
Mas se em relação à primeira presença portuguesa no Baixo Sado, ela foi relativamente mais extensa para Alcácer, com mais de 7 anos em relação ao Torrão, quando em 1217 se dá a conquista definitiva de Alcácer, estamos a crer que se deu o oposto, ou seja:


- Sabemos em que data se deu a conquista definitiva de Alcácer, nos finais de 1217, mas nada sabemos sobre a conquista definitiva do Torrão e em que ano ocorreu.

Geralmente os “silêncios” podem ser lidos como factos ocorridos sem muito interesse para relato futuro, tendo em conta o engrandecimento da figura régia e porquê?
Tendo em conta o contexto da época, em pleno clímax da guerra de conquista, a “legitimidade régia” para governar um reino, seja em Portugal ou nos vizinhos Hispânicos, media-se em conquistas efectuadas à força, regadas por sangue, de ambos os beligerantes. Só assim se podia ter acesso sem restrições aos territórios conquistados, gerindo-os de forma a satisfazer os interesses políticos em vigor na altura.
Em 1217, quem governa é D. Afonso II, que em termos de “curriculum militar” apresenta debilidades graves que pode por em causa a sua legitimidade como rei de Portugal.
Ciente deste facto, é sintomático que imediatamente após a conquista de Alcácer e apesar de ausente, facto que não lhe é abonatório, D. Afonso II apressou-se a comunicar o feito ao Papa, solicitando-lhe o seu reconhecimento como rei, legitimo herdeiro de D. Afonso Henriques, facto que é confirmado pelo Papa.
Neste contexto, como devemos ler o “silêncio” da conquista do Torrão?



2.2. A Inserção Definitiva do Torrão no reino de Portugal

Se o Torrão fosse um “simples castelo” na dependência de Alcácer, seria natural que pouco depois da conquista de 1217 o castelo fosse abandonado pela sua guarnição.

Mas o Torrão, apesar de dependente de Alcácer, seria mais do que um “simples”castelo de fronteira perante Évora e a sul de Montemor-o-Novo.
A construção de uma musalla em contexto almóada, terá atribuído ao Torrão um prestígio que lhe deu projecção regional no Garb al-Andalus, como o principal ponto de encontro e reunião de voluntários muçulmanos para o “martírio” em território de fronteira.
Contudo, após o desastre almóada de Navas de Tolosa em 1212, o poder Almóada perde o seu vigor e as polémicas religiosas, fragmentação política e desastres militares começam a evoluir de uma forma crescente que vai minar de forma irreparável o aparelho militar dos Magrebinos.
Em Alcácer assume o poder Abdallah ibn Wazir, facto anómalo para a época, que permite ver neste facto a instituição de uma “Dinastia Wazirí” que cristaliza o seu poder em Alcácer e no território militar que assumem como estando à sua responsabilidade.
Se perante a comunidade dos crentes os Banu Wazirí reconhecem o poder legítimo dos Califas Almóadas, na realidade este clã está por conta própria neste sector de fronteira com Portugal e como tal, assumem-se como “soberanos”. Em termos jurídicos e de legalidade islâmica, Alcácer não é encarada como uma Taifa/Reino Autónomo.
O vazio de poder almóada no al-Andalus permitirá a emergência de uma constelação de poderes autónomos inseridos num vasto território que teoricamente pertence ao “estado central almóada”.
Todavia, para o Reino de Portugal, Alcácer após 1212, terá sido encarado como reino autónomo, daí a valorização da conversão de Abdallah Wazir à fé cristã após a conquista de 1217, como vem referido nas crónicas crisrãs.
Após a fuga, o ultimo governador muçulmano alcacerense poderia ter buscado refúgio no castelo do Torrão ou na medina de Beja, contudo preferiu a base segura de Sevilha, e porquê?

- Estes dados só tem sentido, se pensarmos que o Torrão seria inseguro perante o avanço cristão ou que o senhor local não fosse de muita confiança dos Banu Wazir, ou então os dois factores juntos. Tudo isto traduz uma “relativa” autonomia para o Torrão nesta fase, realçada após a conquista de Alcácer.

Mas leituras à parte, continua a persistir uma pergunta sem resposta:

- Em que data foi conquistado o castelo do Torrão?

- Não sabemos, contudo uma certeza fica no ar. A conquista imediata do Torrão após Alcácer parece-nos impossível em 1217, por uma questão de falta de logística cristã e de uma distância que supera os 30 km, correspondente a 1 dia de viajem.

Se tomarmos à letra a documentação conhecida, que dá a conhecer que após 1217, as defesas do castelo de Alcácer ficaram muito danificadas e que os cruzados escreveram ao Papa para permanecerem em território português mais algum tempo
[18], é natural supor que o Torrão tenha ficado em mãos islâmicas por mais algum tempo.
O Papa insiste que a função dos cruzados é combater os muçulmanos na Terra santa e que não devem perder tempo e nem preciosos recursos humanos em Portugal.
Após alguns meses, no início de 1218 o exército cruzado ruma de novo em direcção ao Oriente.
Sabemos por provas arqueológicas, que o sistema defensivo almóada em Alcácer, não foi recuperado na sua totalidade, revelando provavelmente défice de recursos e de conhecimentos técnicos por parte dos cristãos.
Tendo em conta que parte da população muçulmana terá ficado após a conquista, o interesse da Ordem de Santiago é tornar operacional a cidade, relegando para uma fase posterior a ocupação efectiva do espaço rural e castelos anexos.

Parece-nos sintomático que o Foral atribuído a Alcácer em 1218, refira unicamente a existência de aldeias e nunca de castelos, o que permite clarificar a permanência islâmica no Torrão ainda nesse ano.
A anexação do Torrão terá assim acontecido num ano posterior a 1218 e talvez tenha resultado de um pacto estabelecido entre a Ordem de Santiago e a população muçulmana aí existente.

Devemos compreender que apesar do antagonismo dos beligerantes, alguma população muçulmana optava por ficar debaixo do domínio cristão, facto que era mal visto por parte do poder islâmico.
De forma a contornar a questão da legalidade desta postura contrária ao direito islâmico, alguns pensadores muçulmanos começaram a defender a ideia de que esta permanência em território “inimigo”, era análogo à fuga inicial de Maomé, de Meca para Medina. Deste modo, uma postura profundamente “ilegal “, começava a ser encarada com relativa tolerância.
[19]

Só assim compreendemos por que razão o Torrão emerge na documentação tão tardiamente em 1249, numa altura em que termina a conquista do Algarve e a Ordem de Santiago olha com mais tempo para o seu património e procura rentabiliza-lo.
Os tempos começam a ser outros. O Torrão será emancipado do termo de Alcácer e assume-se como sede de município.
Em 1260 temos a notícia que estava encomendada por um cavaleiro chamado Fernado Vermudes e poucos anos depois, no tempo do Mestre Pedro Escacho as suas rendas ascendiam a 1 8000 libas.
No século XIV, o castelo já tinha caído em ruína. A Ordem vai investir 2 000 libras na sua recuperação, mas o trabalho ficou incompleto, porque era necessário mais 1 000 libras.
O Período Baixo Medieval Cristão do Torrão pertence a outro capítulo da História local e tendo em conta os dados disponíveis, ficará para um outro trabalho.
________
Notas de Rodapé:

[1] Segundo a tradição, terá sido atribuído por um Mestre da Ordem de Santiago.
[2] Sobre esta questão, consultar o artigo de Adel Sidarus, (1993) Um texto árabe do século X relativo à nova fundação de Évora e aos movimentos muladi e berbere no ocidente Andaluz, p. 13-14
[3] De forma a seguir fielmente a tradução de Adel Sidarus, (1993)ob, cit, efectuamos o scaner das páginas. Pelo grande interesse que tem, para entendermos como seria o Torrão nesta fase, inserimos um pouco mais de texto.
[4] Citado por Pérez Alvarez, 1992, Fuentes Árabes de Extremadura, p. 166-170. Mantivemos o texto original em espanhol.
[5] O texto é claro em afirmar que a guerra entre as duas taifas terá sido violenta no Baixo Alentejo. Estava em causa a posse da cidade de Beja. A norte estendiam-se os domínios dos Aftássidas de Badajoz e para Sul, em progressão para Norte, expandiam-se os Abádidas de Sevilha. O choque foi inevitável. Não sabemos o que terá acontecido no Torrão. Teoricamente e com base no que temos defendido desde algum tempo, o Torrão faria parte da “Taifa de Alcácer”. O eclodir da guerra violenta entre esta duas taifas, obrigará os Alcacerenses a optarem por um dos reinos. Terão sido anexados por Sevilha por algum tempo, contudo durante grande parte do século XII, farão parte do território Taifa de Badajoz.
[6] Descontando os naturais exageros das crónicas, o que nos parece interessante valorizar neste texto são os seguintes aspectos:
1 – O âmbito geográfico do conflito, que parece coincidir com o Baixo Alentejo entre o Torrão e Beja, e o sul da Estremadura espanhola
2 – Estamos perante um território povoado, semeado de fortalezas, que garante o controle territorial e “expressão do poder” de cada um dos beligerantes.
3 – A base económica parece concentrar-se na criação de gado e na agricultura.
4 – Apesar de existir a figura do soberano, este depende das alianças de “senhores locais”, instalados em castelos e que atentos às conjunturas políticas, poderiam oscilar as suas lealdades! O Torrão poderia ser um desses casos, dada a sua situação de fronteira entre estas duas taifas
.
[7] Apesar da distância cronológica, dos actores serem diferentes e de reportarem a realidades geográficas completamente distintas, o ambiente das II Taifas, apresenta alguns pontos de semelhança com o actual Afeganistão.
[8] Sobre esta questão, consultar o nosso trabalho, Carvalho, 2008, Alcácer do sal, disponível em PDF no site do município de Alcácer.
[10] Sobre esta questão, consultar o nosso trabalho, Carvalho, A Rafael (2008) ALCÁCER DO SAL DO SAL NO FINAL DO PERIODO ISLÂMICO (SÉCULOS XII-XIII): Novos Elementos sobre a 1ª Conquista Portuguesa. Colecção Digital - Elementos para a História do Município de Alcácer do Sal, Nº 1.
[11] Alcácer, base naval, porto natural do Alentejo e Évora, centro de cultura e base militar importante.
[12] Documentos de D. Sancho I (1174-1211) Vol I. Transcrição de Rui de Azevedo, P. Avelino de Jesus da Costa e Marcelino Pereira, 1979, doc. Nº 14, p. 22-24.
[13] Facto que também acontece no país vizinho.
[14] Sobre a importância da toponímia para compreender o território e como “fonte histórica”, é interessante a reflexão de Roldán Castro, 2004, El Paisaje Andalusi: Realidad Histórica y Construccion Cultural, p. 33.: “ La toponímia expresa igualmente el reconocimiento del médio, la valoración del entorno y, debido a su persistência en el tiempo, la fuerza de la memoria histórica. Nombrar un lugar e identificarlo con ciertos rasgos naturales de características notables o singulares no es sino interpretar el paisaje, sentir e interiorizar dicha realidad física.”.
[15] Sobre esta questão consultar o nosso trabalho sobre Alcácer no Final do Período Islâmico (2008), que é o Nº 1 desta colecção em formato PDF. (ver nota seguinte)
[16] Carvalho, 2008. Alcácer no Final do Período Islâmico (Séculos XII-XIII): Novos elementos sobre a 1ª Conquista Portuguesa, Colecção on-Line – Elementos para a História de Alcácer, nº 1, p. 27.
[17] Segundo a nossa proposta, que será apresentada mais à frente, o topónimo Exarramam, poderá derivar da palavra, wadi Sari´a Jama (rio da Musalla)
[18] Afirmando ao Papa que a sua presença era importante para recuperar o sistema defensivo alcacerense.
[19] A problemática da permanência de populações islamizadas em território conquistado pelos cristãos, é uma questão nova, que teoricamente nunca tinha sido objecto de reflexão. Não podemos esquecer que a base cultural islâmica e o seu “corpo legislativo” foram elaborados durante a fase de expansão, que durou alguns séculos. Nunca tinha sido previsto que poderia haver um retrocesso territorial.
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Bibliografia.

Brown, Peter, (1999) A ASCENSÃO DO CRISTIANISMO NO OCIDENTE. Colecção Dirigida por Jacques Le Goff.

Carvalho, A Rafael e Faria, João Carlos (1993) CERÂMICAS MUÇULMANAS DO MUSEU MUNICIPAL DE ALCÁCER DO SAL. Arqueologia Medieval, Nº 3, pp. 101-111. Porto.

Carvalho, A Rafael; Faria, João Carlos e Ferreira, Marisol Aires (2004). ALCÁCER DO SAL ISLÂMICA: Arqueologia e História de uma Medina do Garb al-Andalus (séculos VIII-XIII). Ed. C. M. Alcácer do Sal e IPM.

Carvalho, A Rafael (2005). ALCÁCER DO SAL ENTRE 1191 E 1217 (I PARTE) Neptuno, nº 3, página. ADPA.

Carvalho, A Rafael (2005) ALCÁCER DO SAL ENTRE 1191 E 1217 (II PARTE): O Papel do Hisn Turrus/Castelo do Torrão, no sistema defensivo Alcacerense. Neptuno, nº 5, página 5 - 7. ADPA.

Carvalho, A Rafael (2005) ALCÁCER DO SAL ENTRE 1191 E 1217: Os dias em que al-Qasr al-Fath foi sede do império Almóada. Neptuno, nº 6, página 12 - 13. ADPA.

Carvalho, A Rafael (2007) O BAIXO SADO, DA ANTIGUIDADE TARDIA ATÉ À FASE EMIRAL: Algumas reflexões sobre continuidades e rupturas. Subsídios para o estudo da História Local. Vol. 3, Anos 2004 e 2005. Páginas 303-318, Ed. Câmara Municipal de Setúbal e Rede Portuguesa de Museus.

Carvalho, A Rafael (2007) A TORRE MEDIEVAL DE SANTA CATARINA DE SÍTIMOS: Elementos para o Estudo do Sistema Defensivo de Alcácer do Sal em Contexto Almóada. ADENDA on-line da revista Al Madan nº 15

Carvalho, A Rafael (2007) AL QASR: A Alcácer do Sal Islâmica. Roteiro – Cripta Arqueológica do Castelo de Alcácer do Sal. Edição IPPAR , pp. 43-56.

Carvalho, A Rafael (2007) ALCÁCER: Alcácer do Sal Medieval e Cristã. Roteiro – Cripta Arqueológica do Castelo de Alcácer do Sal. Edição IPPAR , pp. 57-68.

Carvalho, A Rafael (2008) ASPECTOS DO QUOTIDIANO EM ALCÁCER, EM CONTEXTO ISLÂMICO, Neptuno 13, p. 5-7

Carvalho, A Rafael (2008) ALCÁCER DO SAL DO SAL NO FINAL DO PERIODO ISLÂMICO: Séculos XII-XIII): Novos Elementos sobre a 1ª Conquista Portuguesa. Colecção Digital Elementos para a História do Município de Alcácer do Sal, Nº 1.

Faria, João Carlos (2002) ALCÁCER DO SAL AO TEMPO DOS ROMANOS, Ed. Colibri e C. M. Alcácer do Sal.

Faria, João Carlos e Ferreira, Marisol Aires (1986) PORTO DA LAMA – Uma Importante Estação Arqueológica da Época Romana do Concelho de Alcácer do Sal. Movimento Cultural, Ano II - Nº 3 – Dezembro, p. 74-76.

Mantas, Vasco Gil (2004) VIAS E PORTOS NA LUSITÂNIA ROMANA. V Mesa redonda Internacional sobre Lusitânia Romana: Las Comunicaciones, p. 427-453.

Paixão, A Cavaleiro e Carvalho, A Rafael (2001) CERÂMICAS ALMÓADAS DE al-Qasr al-Fath. Actas do Encontro sobre Cerâmicas Muçulmanas do Garb al-Andalus. Ed. IPPAR e da Junta de Estremadura, pp. 198-229.

Paixão, A Cavaleiro; Faria, J: Carlos e Carvalho, A Rafael (2001) CONTRIBUTO PARA O ESTUDO DA OCUPAÇÃO MUÇULMANA NO CASTELO DE ALCÁCER DO SAL: O Convento de Aracoelli. Actas do Colóquio “ Lisboa – Encruzilhada de Cristãos, Judeus e Muçulmanos “, 1997. Arqueologia Medieval Nº 7, pp. 197-209.

Paixão, A Cavaleiro; Faria, J. Carlos e Carvalho, A Rafael (2002) ASPECTOS DA PRESENÇA ALMÓADA EM ALCÁCER (PORTUGAL) Mil anos de Fortificações na Península Ibérica e no Magreb. (500-1500): Actas do Simpósio Internacional sobre Castelos – Palmela. pp. 369-383, Colibri e C M Palmela.

Pérez Alvarez, M. Ángeles (1992) FUENTES ÁRABES DE EXTREMADURA. Ed. Universidade de Extremadura.

Roldán Castro, Fátima (2004) EL PAISAJE ANDALUSI: Andalusi: Realidad Histórica y Construccion Cultural, Paisaje y Naturaleza en Al-Andalus, p. 19-65

quarta-feira, maio 07, 2008

Alcácer em Contexto Almorávida.

terça-feira, dezembro 26, 2006

Face ao exposto, que futuro para este espaço?

Uma primeira proposta de Alentejo Litoral exposta no primeiro Atlas de Portugal. Nesta altura incluia para além dos actuais concelhos do Litoral Alentejano, a actual Península de Setúbal.
Está disponível on-line no site da Biblioteca Nacional, cuja referencia digital é:
Ficha Bibliográfica (visualização ISBD)[279941]GOMES, Bernardino Barros, 1839-1910Cartas elementares de Portugal para uso das escolas [Material cartográfico / por B. Barros Gomes. - Lisboa : Lallement Fréres Typ, 1878. - 29 p. de texto, 5 cartas : color. ; 42 cm http://purl.pt/760CDU 581.9(469)(084.4) 551.7(469)(084.4) 914.69(084.4) 912"18"(084.4)
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A especificidade temática dos contiudos que vão sendo elaborados, aliados a uma grande dinâmica de investigação actualmente existente no Serviço de Arqueologia de Alcácer e que não encontramos nos outros concelhos do Litoral Alentejano, permite-nos efectuar a divisão natural deste blog em dois:
- O presente blog, em termos de endereço digital ficará com a componente dedicada ao periodo islâmico, enquanto o novo espaço será vocacionado para os temas que iremos abordar, relacionados com Alcácer após a conquista cristã de 1217 e irá até ao reinado de D. João II.

Algumas reflexões sobre este Projecto Digital..


Estamos quase no final do ano e é bom efectuar um breve balanço sobre os projectos digitais que demos inicio neste ano de 2006.
Tudo começou de uma forma informal, de apoio à intervenção arqueológica da villa romana de Santa Catarina.
Em meados de Setembro desdobramos os conteudos elaborados em blogs temáticos. Neste final de ano que balanço fazemos?
Pela monitorização que vou efectuando regularmente à recepção dos conteudos elaborados e pela pesquiza que vou efectuando sobre a análise da blogosfera em Portugal e no país vizinho, sou obrigado a citar quase na intrega o Blogista José Luis Orihuela.
Esta reflexão foi apresentada no 3º Encontro Nacional e 1º Encontro Luso-Galaico, 13 e 14 de Outubro de 2006 na Universidade do Porto. Vale a pena consultar demoradamente este sait e os blogs que estão associados.
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Apresentação Convidada: Porque é que os weblogs (não) vão acabar em 2006? José Luis Orihuela

Não, os weblogs não vão terminar. É a resposta que dá José Luis Orihuela à pergunta que o próprio coloca. Tudo, porque nada vai voltar a ser como antes.
Primeiro, porque foram descobertos com os blogs amplos recursos tecnológicos que estão agora disponíveis para pessoas comuns. E isso é ponto sem retorno. A comunicação social, enquanto comunicação pública e massiva, nunca mais vai voltar a ser um exclusivo dos grandes grupos mediáticos, também agora as pessoas comuns têm possibilidades de publicação a grande escala.
Depois, porque o crescimento da blogosfera em termos estatísticos é visível e isso é prova de expansão. E por fim,porque os blogs são um "media líquido", que, não conservando a sua forma, se adapta e modifica em conformidade com as situações que se lhe colocam.
Os riscos que poderiam levar ao fim dos blogs são a instrumentalização mercantil dos Weblogs, nascidos amadores e gratuitos.
Os spamblogs, que são já 56% dos blogs em Inglês, são uma ameça, visto que já são mais usaddos que o spam por e-mail.
A apropriação dos blogs por parte dos média, chamada "canibalização" por José Luis Orihuela é um risco, porque degrada a imagem dos Weblogs. Actualmente, qualquer colunista é apelidado de blogger.
A credibilidade, ou a falta dela, é o último dos perigos referidos, visto, que deu origem ao que qualquer pessoa pode publicar.
O desafio que se põe ao bloggers é a Inovação, de acordo com José Luis Orihuela este é o desafio que se poões aos média tradiconais e também aos blogs. O exemplo dado é o de Disck Fosbury, inventor do Fosbury Flop, que se tornou o modelo do salto em altura. A Inovação e superioridade técnica fê-lo sobressair e isto é o que todos nós devíamos fazer na nossa vida, assim como os bloggers.
Citando Jorge Wangensberg, o orador convidado do 3º Encontro afirmou que o " uso criativo de uma nova tecnologia é inconfundível, com a tecnologia não se trabalha menos, trabalha-se com mais ideias".
No fim da comunicação, José Luis Orihuela deixa dez dicas para novos bloggers:
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1-Começa a ler blogs
2-Experimenta várias ferramentas
3-Escolhe um tema, um blog disperso fracassa. Domina o tema e fornece muita informação sobre ele.
4-Toma em atenção a qualidade da escrita, não escrevas como uma SMS, um blog é comunicação pública.
5-Faz links para as fontes
6-Esquece as estatísticas e comentários.
7-Espera o tempo suficiente para o promover. Só quando tiveres mais conteúdos interessantes é que merecerás um link.
8-Participa na Blogosfera, comenta o trabalho dos outros.
9-Lembra-te que o blog público, por isso deves ter cuidado com a qualidade.
10-Diverte-te!
As frases de Orihuela debate:
"O Divertimento é essencial no trabalho e na vida, assim como um privilégio"
"Financiamento só se justifica se houver tráfego suficiente"
"O tempo é um dos problemas dos blogs, são viciantes. Somos junkies da informação."
"Nunca lemos tanto para escrever tão pouco."
"Ter contacto com a vida real, também parece ser interessante"
"Pode-se escrever um blog sobre tudo o que nos apaixone"

Blog de José Luis Orihuela: eCuaderno
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Face ao exposto e com base noutros artigos publicados neste encontro, chego à conclusão que em 2007 vou ter que redefenir os meus blogs tendo em conta os conteudos que serão elaborados, o contexto geográfico em que estão inseridos, que é o LITORAL ALENTEJANO e os publicos receptores naturais deste meio projecto - A comunidade cientifica e a escolar, numa prespectiva alargada e informal de apoio ao E-Learning, como passo inicial para uma hipotética adesão aos sistemas de E-learning do projecto Europeo i4Camp. (Para mais informações sobre esta questão, consultar o artigo -BLOGS PARA EDUCAR. Uso de los blogs en una pedagogía constructivista. Artigo publicado en Revista Telos, número 65, Octubro Diciembre 2005, páginas 86-93. Disponível em http://www.campusred.net/telos/cuaderno.asp )